Segunda parte - Capítulo XVI
Em que se declaram as barras que tem a Bahia de Todos os Santos, e
como está arrumada a Ilha de Itaparica, entre uma barra e a outra.
Acima fica dito como dista a ponta de Tinharé da do Padrão
nove ou dez léguas, entre as quais pontas da banda de dentro
delas está lançada uma ilha de sete léguas de comprido que se
chama Itaparica, a qual Tomé de Sousa, sendo governador-geral
do Brasil, deu de sesmaria a D. Antônio de Ataíde, primeiro
Conde de Castanheira, o que Sua Alteza depois lhe confirmou, e
lhe fez nova doação dela, com título de capitão e governador; ao
que veio com embargos a Câmara da cidade do Salvador, sobre o
que contendem há mais de trinta anos, e lhe impediu sempre a
jurisdição, sem até agora se averiguar esta causa. Deixa esta ilha
entre si e o morro de Tinharé outra baía mui grande, com fundo
e porto, em que podem entrar naus de todo o porte, e tem grande
ancoradouro e abrigada à sombra do morro, de que se aproveitam
muitas vezes as naus que vêm do reino, quando lhes escasseia o
vento, e não podem entrar na baía da ilha para dentro. Da ponta
desta Ilha de Itaparica à ponta do Padrão está a barra do leste, e
entre a outra ponta da ilha e a ponta de Jaguaripe está a barra de
loeste, por cada uma destas barras se entra na baía com a proa ao
norte. A barra de loeste se chama de Jaguaripe por se meter nela
um rio do mesmo nome. Haverá, da terra firme a essa ponta da
ilha, perto de uma légua de terra a terra, a qual barra é aparcelada
por ser cheia de baixios de areia, mas tem um canal estreito por
onde navegam, pelo qual entram caravelões da costa e barcas dos
engenhos; mas há de ser com tempos bonançosos, porque com
marulho não se enxerga o canal. E corre grande perigo quem se
aventura a cometer esta barra de Jaguaripe com tempo fresco e
tormentoso.