Primeira parte - Capítulo LXII
Em que se declara parte da fertilidade da terra de São Vicente..
Nestas capitanias de São Vicente e Santo Amaro são os ares
frios e temperados, como na Espanha, cuja terra é mui sadia e de
frescas e delgadas águas, em as quais se dá o açúcar muito bem, e
se dá trigo e cevada, do que se não usa na terra por os mantimentos dela serem muito bons e facilíssimos de granjear, de que os
moradores são mui abastados e de muito pescado e marisco, onde
se dão tamanhas ostras que têm a casca maior que um palmo, e
algumas muito façanhosas. Do trigo usam somente para fazerem
hóstias e alguns mimos. Tem esta capitania muita caça de porcos
e veados, e outras muitas alimárias e aves, e criam-se aqui tantos
porcos e tamanhos, que os esfolam para fazerem botas e couros
de cadeiras, o que acham os moradores destas capitanias mais
proveitosos e melhor que de couro das vacas, de que nestas capitanias há muita quantidade por se na terra darem melhor que
na Espanha, onde as carnes são muito gordas e gostosas, e fazem
vantagem às das outras capitanias, por a terra ser mais fria.
Dão-se nesta terra todas as frutas de espinho que tem Espanha,
às quais a formiga não faz nojo, nem a outra coisa, por se não criar
na terra como nas outras capitanias; dão-se nestas capitanias uvas,
figos, romãs, maçãs e marmelos, em muita quantidade, e os moradores da vila de São Paulo têm já muitas vinhas; e há homens nela
que colhem já duas pipas de vinho por ano, e por causa das plantas é muito verde, e para se não avinagrar lhe dão uma fervura
no fogo; e também há já nesta terra algumas oliveiras, que dão
fruto, e muitas rosas, e os marmelos são tantos que os fazem de
conserva, e tanta marmelada que a levam a vender por as outras
capitanias. E não há dúvida se não que há nestas capitanias outra
fruta melhor que é a prata, o que se não acaba de descobrir, por
não ir à terra quem a saiba tirar das minas e fundir.