Segunda parte - Capítulo LXXVI
Que trata dos cipós e o para que servem.
Deu a natureza no Brasil, por entre os seus arvoredos, umas
cordas muito rijas e muitas, que nascem aos pés das árvores e
atrepam por elas acima, a que chamam cipós com que os índios
atam a madeira das suas casas, e os brancos que não podem mais,
com que escusam pregadura; e em outras partes servem em lugar
de cordas, e fazem deles cestos melhores que de vime, e serão da
mesma grossura, mas têm comprimento de cinco e seis braças.
Nestes mesmos matos se criam outras cordas mais delgadas
e primas, que os índios chamam timbós; que são mais rijos que
os cipós acima, servem do mesmo, aos quais fendem também em
quatro partes, e ficam uns fios mui lindos como de rota da Índia
em cadeiras, e com estes fios atam a palma das casas quando as cobrem com ela, do que fazem também cestos finos; e far-se-á deles
tudo o que se faz da rota da Índia.
Há outra casta, que os índios chamam timborana, que é da
mesma feição dos timbós, mas não são tão rijos, do que se aproveitam os índios, quando não acham os timbós.
Criam-se também nestes matos uns cipós muito grossos, a
que os índios chamam cipó-imbé, cujo nascimento é também ao
pé das árvores, por onde atrepam; e são rijos que tiram com eles
as gangorras dos engenhos do mato e as madeiras grossas; pelas
quais puxam cem e duzentos índios, sem quebrarem, e se acertam
de quebrar tornam-se logo a atar, e com eles varam as barcas em
terra, e as deitam ao mar, e acham-nos tão grossos como são necessários, com os quais se escusam calabrotes de linho.