Segunda parte - Capítulo CLXVI
Que trata do grande conhecimento que os tupinambás têm da terra.
Têm os tupinambás grande conhecimento da terra por onde
andam, pondo o rosto no sol, por onde se governam; com o que
atinam grandes caminhos pelo deserto, por onde nunca andaram;
como se verá pelo que aconteceu já na Bahia, de onde mandaram
dois índios destes tupinambás degredados pela justiça por seus
delitos, para Rio de Janeiro, onde foram levados por mar; os quais
se vieram de lá, cada um por sua vez, fugidos, afastando-se sempre
do povoado, por não ser sentidos por seus contrários; e vinham
sempre caminhando pelos matos; e desta maneira atinaram com
a Bahia, e chegaram à sua aldeia, de onde eram naturais a salvamento, sendo caminho mais de trezentas léguas.
Costuma este gentio, quando anda pelo mato sem saber novas
do lugar povoado, deitar-se no chão, e cheirar o ar, para ver se lhe
cheira a fogo, o qual conhecem pelo faro a mais de meia légua,
segundo a informação de quem com eles trata mui familiarmente; e quando lhe cheira a fogo, se sobem às mais altas árvores que
acham, em busca de fumo, o que alcançam com a vista de mui
longe, o qual vão seguindo, se lhes vem bem ir aonde ele está; e
se lhes convém desviar-se dele, o fazem antes que sejam sentidos;
e por os tupinambás terem este conhecimento da terra e do fogo,
se faz muita conta deles, quando se oferece irem os portugueses à
guerra a qualquer parte, onde os tupinambás vão sempre adiante,
correndo a terra por serem de recado, e mostrando à mais gente
o caminho por onde hão de caminhar, e o lugar onde se hão de
aposentar cada noite.