Primeira parte - Capítulo LXIII
Que trata de quem são os guaianases e de seus costumes.
Já fica dito como os tamoios são fronteiros de outro gentio,
que se chamam os guaianases, os quais têm sua demarcação ao
longo da costa por Angra dos Reis, e daí até o Rio de Cananeia,
onde ficam vizinhando com outra casta de gentios, que se chama
os carijós. Estes guaianases têm continuamente guerra com os
tamoios, de uma banda, e com os carijós da outra, e matam-se uns
aos outros cruelmente; não são os guaianases maliciosos, nem
refalsados, antes simples e bem acondicionados, e facílimos de
crer em qualquer coisa. É gente de pouco trabalho, muito molar,
não usam entre si lavoura, vivem de caça que matam e peixe que
tomam nos rios, e das frutas silvestres que o mato dá; são grandes flecheiros e inimigos de carne humana. N ão matam aos que
cativam, mas aceitam-nos por seus escravos; se encontram com
gente branca, não fazem nenhum dano, antes boa companhia, e
quem acerta de ter um escravo guaianás não espera dele nenhum
serviço, porque é gente folgazã de natureza e não sabe trabalhar.
Não costuma este gentio fazer guerra a seus contrários, fora dos
seus limites, nem os vão buscar nas suas vivendas, porque não
sabem pelejar entre o mato, senão no campo aonde vivem, e se
defendem com seus arcos e flechas dos tamoios, quando lhe vêm
fazer guerra, com quem pelejam no campo mui valentemente
e às flechadas, as quais sabem empregar tão bem como os seus
contrários. Não vive este gentio em aldeias com casas arrumadas,
como os tamoios seus vizinhos, mas em covas pelo campo, debaixo do chão, onde têm fogo de noite e de dia e fazem suas camas de
rama e peles de alimárias que matam. A linguagem deste gentio
é diferente da de seus vizinhos, mas entendem-se com os carijós;
são na cor e proporção do corpo como os tamoios, e têm muitas
gentilidades, como o mais gentio da costa.