Primeira parte - Capítulo LXIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 64 de 271
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Primeira parte - Capítulo LXIII

Que trata de quem são os guaianases e de seus costumes.

Já fica dito como os tamoios são fronteiros de outro gentio,

que se chamam os guaianases, os quais têm sua demarcação ao

longo da costa por Angra dos Reis, e daí até o Rio de Cananeia,

onde ficam vizinhando com outra casta de gentios, que se chama

os carijós. Estes guaianases têm continuamente guerra com os

tamoios, de uma banda, e com os carijós da outra, e matam-se uns

aos outros cruelmente; não são os guaianases maliciosos, nem

refalsados, antes simples e bem acondicionados, e facílimos de

crer em qualquer coisa. É gente de pouco trabalho, muito molar,

não usam entre si lavoura, vivem de caça que matam e peixe que

tomam nos rios, e das frutas silvestres que o mato dá; são grandes flecheiros e inimigos de carne humana. N ão matam aos que

cativam, mas aceitam-nos por seus escravos; se encontram com

gente branca, não fazem nenhum dano, antes boa companhia, e

quem acerta de ter um escravo guaianás não espera dele nenhum

serviço, porque é gente folgazã de natureza e não sabe trabalhar.

Não costuma este gentio fazer guerra a seus contrários, fora dos

seus limites, nem os vão buscar nas suas vivendas, porque não

sabem pelejar entre o mato, senão no campo aonde vivem, e se

defendem com seus arcos e flechas dos tamoios, quando lhe vêm

fazer guerra, com quem pelejam no campo mui valentemente

e às flechadas, as quais sabem empregar tão bem como os seus

contrários. Não vive este gentio em aldeias com casas arrumadas,

como os tamoios seus vizinhos, mas em covas pelo campo, debaixo do chão, onde têm fogo de noite e de dia e fazem suas camas de

rama e peles de alimárias que matam. A linguagem deste gentio

é diferente da de seus vizinhos, mas entendem-se com os carijós;

são na cor e proporção do corpo como os tamoios, e têm muitas

gentilidades, como o mais gentio da costa.

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