Segunda parte - Capítulo CXXXVIII
Que trata da natureza dos lagostins e uçás.
Aos lagostins chama o gentio potiquiquiá; os quais são da maneira das lagostas, mas menores alguma coisa e em tudo o mais
têm a mesma feição e feitio; e criam-se nas concavidades dos arrecifes, onde se tomam em conjunção das águas vivas muitos; e em
seu tempo, que é nas marés da lua nova, estão melhores que na
lua cheia, na qual estão cheios de corais muito grandes as fêmeas,
e os machos muito gordos; e para se tomarem bem estes lagostins,
há de ser de noite, com fachos de fogo.
O marisco mais proveitoso à gente da Bahia são uns caranguejos a que os índios chamam uçás, os quais são grandes e têm
muito que comer; e são mui sadios para mantença dos escravos
e gente do serviço; estes caranguejos se criam na vasa, entre os
mangues, de cuja folha se mantêm e têm corais uma só vez no
ano; e quando desovam pelam a casca, assim os machos como as
fêmeas, e nasce-lhes outra casca por baixo; e enquanto a têm mole
estão por dentro cheios de leite, e fazem dor de barriga aos que os
comem; e, quando as fêmeas estão com corais, os machos estão
mui gordos, tanto que parece o seu casco estar cheio de manteiga;
e quando assim estão são mui gostosos, os quais se querem antes
assados que cozidos. Têm estes caranguejos no casco um fel grande, e bucho junto à boca com que comem, o qual amarga muito,
e é necessário tirá-lo a tento, porque não faça amargar o mais.
Estes uçás são infinitos, e faz espanto a quem atenta para isso, e é
não haver quem visse nunca caranguejos desta casta quando são
pequenos, que todos aparecem e saem das covas de lama, onde
fazem a sua morada, do tamanho que hão de ser; das quais covas
os tiram os índios mariscadores com o braço nu; e como tiram as
fêmeas fora as tornam logo a largar para que não acabem, e façam
criação. Estes caranguejos têm as pernas grandes, e duas bocas
muito maiores com que mordem muito, e nas quais têm tanto
que comer como as das lagostas; e o que se delas come e o mais
do caranguejo, é muito gostoso. E não há morador nas fazendas
da Bahia que não mande cada dia um índio mariscar destes caranguejos; e de cada engenho vão quatro ou cinco destes mariscadores, com os quais dão de comer a toda a gente de serviço; e não
há índios destes que não tome cada dia trezentos a quatrocentos
caranguejos, que trazem vivos num cesto serrado feito de verga
delgada, a que os índios chamam samburá; e recolhem em cada
samburá destes um cento, pouco mais ou menos.