Segunda parte - Capítulo CXXXVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 213 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXXXVIII

Que trata da natureza dos lagostins e uçás.

Aos lagostins chama o gentio potiquiquiá; os quais são da maneira das lagostas, mas menores alguma coisa e em tudo o mais

têm a mesma feição e feitio; e criam-se nas concavidades dos arrecifes, onde se tomam em conjunção das águas vivas muitos; e em

seu tempo, que é nas marés da lua nova, estão melhores que na

lua cheia, na qual estão cheios de corais muito grandes as fêmeas,

e os machos muito gordos; e para se tomarem bem estes lagostins,

há de ser de noite, com fachos de fogo.

O marisco mais proveitoso à gente da Bahia são uns caranguejos a que os índios chamam uçás, os quais são grandes e têm

muito que comer; e são mui sadios para mantença dos escravos

e gente do serviço; estes caranguejos se criam na vasa, entre os

mangues, de cuja folha se mantêm e têm corais uma só vez no

ano; e quando desovam pelam a casca, assim os machos como as

fêmeas, e nasce-lhes outra casca por baixo; e enquanto a têm mole

estão por dentro cheios de leite, e fazem dor de barriga aos que os

comem; e, quando as fêmeas estão com corais, os machos estão

mui gordos, tanto que parece o seu casco estar cheio de manteiga;

e quando assim estão são mui gostosos, os quais se querem antes

assados que cozidos. Têm estes caranguejos no casco um fel grande, e bucho junto à boca com que comem, o qual amarga muito,

e é necessário tirá-lo a tento, porque não faça amargar o mais.

Estes uçás são infinitos, e faz espanto a quem atenta para isso, e é

não haver quem visse nunca caranguejos desta casta quando são

pequenos, que todos aparecem e saem das covas de lama, onde

fazem a sua morada, do tamanho que hão de ser; das quais covas

os tiram os índios mariscadores com o braço nu; e como tiram as

fêmeas fora as tornam logo a largar para que não acabem, e façam

criação. Estes caranguejos têm as pernas grandes, e duas bocas

muito maiores com que mordem muito, e nas quais têm tanto

que comer como as das lagostas; e o que se delas come e o mais

do caranguejo, é muito gostoso. E não há morador nas fazendas

da Bahia que não mande cada dia um índio mariscar destes caranguejos; e de cada engenho vão quatro ou cinco destes mariscadores, com os quais dão de comer a toda a gente de serviço; e não

há índios destes que não tome cada dia trezentos a quatrocentos

caranguejos, que trazem vivos num cesto serrado feito de verga

delgada, a que os índios chamam samburá; e recolhem em cada

samburá destes um cento, pouco mais ou menos.

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