Segunda parte - Capítulo CXCVI
Em que se declara a muita quantidade de ouro e prata que há na
comarca da Bahia.
Dos metais de que o mundo faz mais conta, que é o ouro e
prata, fazemos aqui tão pouca, que os guardamos para o remate e
fim desta história, havendo-se de dizer deles primeiros, pois esta
terra da Bahia tem dele tanta parte quanto se pode imaginar; do
que podem vir à Espanha cada ano maiores carregações do que
nunca vieram das Índias Ocidentais, se Sua Majestade for disto
servido, o que se pode fazer sem se meter nesta empresa muito
cabedal de sua fazenda, de que não tratamos miudamente por não
haver para quê, nem fazer ao caso da tenção destas lembranças,
cujo fundamento é mostrar as grandes qualidades do Estado do
Brasil, para se haver de fazer muita conta dele, fortificando-lhe
os portos principais, pois têm tanto cômodo para isso como no
que toca à Bahia está declarado; o que se devia pôr em efeito com
muita instância, pondo os olhos no perigo em que está de chegar
à notícia dos luteranos parte do conteúdo neste Tratado, para fazerem suas armadas, e se irem povoar esta província, onde com
pouca força que levem de gente bem armada se podem senhorear
dos portos principais, porque não hão de achar nenhuma resistência neles, pois não têm nenhum modo de fortificação, de onde
os moradores se possam defender nem ofender a quem os quiser
entrar. Se Deus o permitir por nossos pecados, que seja isto, acharão todos os cômodos que temos declarado e muito mais para se
fortificarem, porque hão de fazer trabalhar os moradores nas suas
fortificações com as suas pessoas, com seus escravos, barcos, bois,
carros e tudo o mais necessário, e com todos os mantimentos que
tiverem por suas fazendas, o que lhes há de ser forçado fazer para
com isso resgatarem as vidas; e com a força da gente da terra se
poderão apoderar e fortificar de maneira que não haja poder humano com que se possam tirar do Brasil estes inimigos, de onde
podem fazer grandes danos a seu salvo em todas as terras marítimas da coroa de Portugal e Castela, o que Deus não permitirá;
de cuja bondade confiamos que deixará estar estes inimigos de
nossa santa fé católica com a cegueira que até agora tiveram de
não chegar à sua notícia o conteúdo neste Tratado, para que lhe
não façam tantas ofensas estes infiéis, como lhe ficarão fazendo se
se senhorearem desta terra, que Deus deixe crescer em Seu santo
serviço; com o que o Seu santo nome seja exalçado, para que Sua
Majestade a possa possuir por muitos e felizes anos com grandes
contentamentos.