Segunda parte - Capítulo CVI
Que trata dos cágados da Bahia.
Em qualquer parte dos matos da Bahia, se acham muitos cágados, que se criam pelos pés das árvores, sem irem à água, a que os
índios chamam jabuti; há uns que são muito maiores que os da
Espanha, mais altos e de mais carne, e têm as conchas lavradas
em compartimentos oitavados de muito notável feitio; os lavores
dos compartimentos são pretos, e o meio de cada um é branco
e almecegado. Estes cágados têm as mãos, pés, pernas, pescoço
e cabeça, cheios de verrugas tamanhas, como chícharros, muito
vermelhas, e agudas nas pontas; estes põem infinidade de ovos,
de que nascem em terra úmida, onde criam debaixo do arvoredo; mantêm-se de frutas, que caem pelo chão; e metidos em casa
comem tudo quanto acham pelo chão; cuja carne é muito gorda,
saborosa e sadia para doentes.
Há outros cágados, que também se criam no mato, sem irem
à água, a que os índios chamam jabutiapeba; os quais têm os
mesmos lavores nas conchas, mas são muito amassados, e têm as
costas muito chãs, e não têm verrugas; têm pouca carne e mui
saborosa; criam e mantêm-se pela ordem dos de cima.
Há outras castas de cágados da feição dos da Espanha, a que os
índios chamam jabuti-mirim, que se criam e andam sempre na
água, que também são mui saborosos e medicinais; e dos que se
criam na água há muitas castas de diversas feições, que têm as
mesmas manhas, e natureza, mas mui diferentes na grandura. E
pareceu-me decente arrumar neste capítulo os cágados por serem
animais que se criam na terra, e se mantêm de frutas dela.