Segunda parte - Capítulo XLVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 123 de 271
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Segunda parte - Capítulo XLVIII

Em que se declara quantas castas de pimenta há na Bahia.

À sombra destes legumes, e na sua vizinhança, podemos ajuntar quantas castas de pimenta há na Bahia, segundo nossa notícia;

e digamos logo da que chamam cuiém, que são tamanhas como

cerejas, as quais se comem em verdes, e, depois de maduras, cozidas inteiras com o pescado e com os legumes, e de uma maneira

e de outra queimam muito, e o gentio come-a inteira, misturada

com a farinha.

Costumam os portugueses, imitando o costume dos índios,

secarem esta pimenta, e depois de estar bem seca, a pisam de mistura com o sal, ao que chamam juquiraí na qual molham o peixe

e a carne, e entre os brancos se traz no saleiro, e não descontenta

a ninguém. Os índios a comem misturada com a farinha, quando

não têm que comer com ela. Estas pimentas fazem árvores de quatro e de cinco palmos de alto, e duram muitos anos sem se secar.

Há outra pimenta, a que pela língua dos negros se chama

cuiemoçu; esta é grande e comprida, e depois de madura faz-se

vermelha; e usam dela como da de cima; e faz árvores de altura

de um homem, e todo o ano dá novidade; sempre têm pimentas

vermelhas, verdes e flor, e dura muitos anos sem se secar.

Há outra casta, que chamam cuiepiá, a qual tem bico, feição e

tamanho dos gravanços; come-se em verde, crua e cozida como a

de cima, e como é madura faz-se vermelha, a qual queima muito; a

quem as galinhas e pássaros têm grande afeição; e faz árvore meã,

que em todo o ano dá novidade.

Há outra casta, que chamam sabãa, que é comprida e delgada,

em verde não queima tanto como quando é madura, que é vermelha; cuja árvore é pequena, dá fruta todo o ano, e também se usa

dela como da mais.

Há outra casta que se chama cuiejurimu, por ser da feição de

abóbora, assim amassada; esta, quando é verde, tem a cor azulada, e quando é madura se faz vermelha; da qual se usa como das

mais de que temos dito, cuja árvore é pequena e em todo o ano dá

novidade.

Há outra casta, que chamam cumari, que é bravia e nasce pelos

matos, campos e pelas roças, a qual nasce do feitio dos pássaros

que a comem muito, por ser menor que gravanços; mas queima

mais que todas as que dissemos, e é mais gostosa que todas; e

quando é madura faz-se vermelha, e quando se acha desta não se

come da outra; faz-se árvore pequena, tem as flores brancas como

as demais, e dá novidade em todo o ano.

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