Segunda parte - Capítulo LXII
Em que se declara o modo com que se cria o algodão, e de sua virtude,
e de outras ervas que fazem árvore.
Maniim chamam os índios ao algodão, cujas árvores parecem
marmeleiros arruados em pomares; mas a madeira dele é como de
sabugueiro, mole e oca por dentro; a folha parece de parreira, com
o pé comprido, vermelho, com o sumo da qual se curam feridas
espremendo nelas. A flor do algodão é uma campainha amarela
muito formosa, de onde nasce um capulho, que ao longe parece
uma noz verde, o qual se fecha com três folhas grossas e duras, da
feição das com que se fecham os botões das rosas; e quando o algodão está de vez, que é de agosto por diante, abrem-se estas folhas,
com que se fecham estes capulhos, e vão-se secando e mostrando
o algodão que têm dentro, muito alvo, e, se não o apanham logo,
cai no chão; e em cada capulho destes estão quatro de algodão,
cada um do tamanho de um capulho de seda; e cada capulho destes tem dentro um caroço preto, com quatro ordens de carocinhos
pretos, e cada carocinho é do tamanho e da feição do feitio dos
ratos, que é a semente de onde o algodão nasce, o qual no mesmo
ano que se semeia dá a novidade.
Estes caroços de algodão come o gentio pisados, e depois cozidos, que se faz em papas que chamam mingau.
As árvores destes algodoeiros duram sete a oito anos e mais,
quebrando-lhe cada ano as pontas grandes a mão, porque se secam, para que lancem outros filhos novos, em que tomam mais
novidade, os quais algodões se alimpam a enxada, duas e três vezes cada ano, para que a erva os não acanhe.
Camará é uma erva que nasce pelos campos, que cheira a erva-
-cidreira, a qual faz árvore com muitos ramos como de roseira -
-de-alexandria; cuja madeira é seca e quebradiça, a folha é como
de erva-cidreira; as flores são como cravos-de-túnis, amarelos e da
mesma feição, mas de feitio mais artificioso. Cozidas as folhas e
flores desta erva, tem a sua água muito bom cheiro e virtude para
sarar sarna e comichão, e para secar chagas de boubas lavando-as
com esta água quente, do que se usa muito naquelas partes.
Há outra casta deste camará, que dá flores brancas da mesma
feição, a qual tem a mesma virtude; e quando cai a flor, assim a
uma como a outra, ficam-lhe umas camarinhas denegridas, que
comem os meninos e os passarinhos, que é a semente, de que esta
erva nasce.
Nas campinas da Bahia se dão urzes de Portugal, da mesma feição, assim nos ramos como na flor, mas não dão camarinhas; dos
quais ramos, cozidos na água, se aproveitam os índios para secar
qualquer humor ruim.
Às canas da Bahia chama o gentio ubá, as quais têm folhas
como as da Espanha, e as raízes da mesma maneira que lavram
a terra muito; as quais, cozidas em água, têm a mesma virtude
dessecativa que as da Espanha. Estas canas são compridas, cheias
de nós por fora e maciças por dentro, ainda que tenham o miolo
mole e estopento. Espigam estas canas cada ano, cujas espigas são
de quinze e vinte palmos de comprido, de que os índios fazem
flechas com que atiram. E também se dão na Bahia as canas da
Espanha, mas não crescem tanto como as da terra.
Jaborandi é uma erva que faz árvore da altura de um homem,
e lança umas varas em nós, como canas, por onde estalam muito
como as apertam; a folha será de palmo de comprido, e da largura
da folha da cidreira, a qual cheira a hortelã francesa, e tem a aspereza da hortelã ordinária; a água cozida com estas folhas é loura
e muito cheirosa e boa para lavar o rosto ao barbear; quem tem
a boca danada, ou chagas nela, mastigando as folhas desta erva
duas ou três vezes cada dia, e trazendo-a na boca, a cura muito
depressa; queimadas estas folhas, os pós delas alimpam o câncer
das feridas, sem dar nenhuma pena, e tem outras muitas virtudes.
Esta erva dá umas candeias como castanheiros, onde se cria a semente de que nasce.
Nascem outras ervas pelo campo, a que chamam os índios caapiam, que têm flores brancas da feição dos bem-me-queres, onde
há umas sementes como gravanço; das quais e das flores se faz tinta amarela como açafrão muito fino, do que usam os índios no seu
modo de tintas. A árvore que faz esta erva é como a do alecrim, e
tem a folha mole, e a cor verde-clara, como alface.
Dão-se ao longo da ribeira da Bahia umas ervas, a que os índios
chamam jaborandiba; e dão o mesmo nome da de cima, por se
parecer nos ramos com ela; e os homens que andaram na Índia
lhe chamam bétele, por se parecer em tudo com ele. A folha desta erva, metida na boca, requeima como folhas de louro, a qual é
muito macia, e tem o verde muito escuro. A árvore que faz esta
erva é tão alta como um homem, os ramos têm muitos nós, por
onde estala muito. Quem se lava com ela cozida nas partes eivadas do fígado, lhas cura em poucos dias; e cozidos os olhos e comestos, são saníssimos para este mal do fígado; e mastigadas estas
folhas e trazidas na boca, tiram a dor de dentes.