Primeira parte - Capítulo XVIII
Em que se declara a costa do cabo e Rio do Ipojuca até o Rio de São
Francisco.
Já fica dito como se mete o Rio de Ipojuca como o do Cabo ao
entrar no salgado, agora digamos como dele ao porto das Galinhas
são duas léguas. A terra que há entre este porto e o Rio de Ipojuca
é toda alagadiça. Neste porto e Rio das Galinhas entram barcos da
costa. Do Rio das Galinhas à Ilha de Santo Aleixo é uma légua, na
qual há surgidouro e abrigo para as naus, e está afastada da terra
firme uma légua; da Ilha de Santo Aleixo ao Rio de Maracaípe
são seis léguas, onde entram caravelões, o qual tem uns ilhéus na
boca. De Maracaípe ao Rio Formoso são duas léguas, o qual tem
um arrecife ao mar defronte de si, que tem um boqueirão por
onde entram navios da costa, o qual está em nove graus, cuja terra
é escalvada mas bem provida de caça. Do Rio Formoso ao de Una
são três léguas, o qual tem na boca uma ilha de mangues da banda
do norte, a qual se alaga com a maré, e mais adiante, chegadas à
terra, tem sete ilhetas de mato. Neste Rio Una ao porto das Pedras
são quatro léguas, o qual está em nove graus e meio. Entre este e
o Rio Una se faz uma enseada muito grande, onde podem surgir e
barlaventear naus que nadem em fundo de cinco até sete braças,
porque tanto tem de fundo.
E corre-se a costa do Cabo de Santo Agostinho até este porto
das Pedras nor-nordeste su-sudoeste. Deste porto ao Rio Camaragipe são três léguas, cuja fronteira é de um banco de arrecifes
que tem algumas abertas por onde entram barcos da costa, e ficam
seguros de todo o tempo entre os arrecifes e a terra. Neste Rio de
Camaragipe entram navios de honesto porte, e na ponta da barra
dele da banda do sul tem umas barreiras vermelhas, cuja terra ao
longo do mar é escalvada até o Rio de Santo Antônio Mirim, que
está dele duas léguas, onde também entram caravelões da costa.
Do Rio de Santo Antônio Mirim ao porto Velho dos Franceses são
três léguas, onde eles costumam ancorar com as suas naus e resgatar com o gentio. Do porto Velho dos Franceses ao Rio de São
Miguel são quatro léguas, que está em dez graus, no qual entram
navios da costa, e entre um e outro entra no mar o Rio da Alagoa,
onde também entram caravelões, o qual se diz da Alagoa, por
nascer de uma que está afastada da costa, ao qual rio chamam os
índios o Porto Jaraguá. Do Rio de São Miguel ao porto Novo dos
Franceses são duas léguas, defronte do qual fazem os arrecifes que
(vão correndo a costa), uma aberta por onde os franceses costumavam entrar com suas naus, e ancoravam entre o arrecife e a
terra por ter fundo para isso, onde estavam muito seguros, e daqui
faziam seu resgate com o gentio. Do porto Novo dos Franceses
ao de Sepetiba é uma légua, do qual ao Rio de Currurupe são três
léguas no qual entram navios da costa, cuja terra ao longo do mar
é fraca, mas para dentro duas léguas é arresoada. Deste Rio do
Currurupe até o Rio de São Francisco são seis léguas.
Da ponta da barra Currurupe, contra o Rio de São Francisco se
vai armando uma enseada de duas léguas, na qual bem chegados
à terra, estão os arrecifes de D. Rodrigo, onde também se chama o
porto dos Franceses, por se, eles costumarem recolher aqui com
suas naus à abrigada desta enseada, e iam por entre os arrecifes e
a terra, com suas lanchas, tomar carga do pau de tinta no Rio de
Currurupe.
Aqui se perdeu o bispo do Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha,
com sua nau vinda da Bahia para Lisboa, em a qual vinha Antônio
Cardoso de Barros, provedor-mor que fora do Brasil, e dois cônegos e duas mulheres honradas e casadas, muitos homens nobres e
outra muita gente, que seriam mais de cem pessoas brancas, afora
escravos, a qual escapou toda deste naufrágio, mas não do gentio
caeté, que neste tempo senhoreava esta costa da boca deste Rio de
São Francisco até o da Paraíba; depois que estes caetés roubaram
este bispo e toda esta gente de quanto salvaram, os despiram e
amarraram a bom recado, e pouco a pouco os foram matando e
comendo, sem escapar mais que dois índios da Bahia com um português que sabia a língua, filho do meirinho da correição. A terra
que há por cima desta enseada até perto do Rio de São Francisco
é toda alagadiça, cuja água se ajunta toda em uma ribeira, que se
dela faz, a qual vai entrar no Rio de São Francisco até o porto das
Pedras nor-nordeste su-sudoeste, e toma da quarta de norte sul.