Primeira parte - Capítulo XVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 19 de 271
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Primeira parte - Capítulo XVIII

Em que se declara a costa do cabo e Rio do Ipojuca até o Rio de São

Francisco.

Já fica dito como se mete o Rio de Ipojuca como o do Cabo ao

entrar no salgado, agora digamos como dele ao porto das Galinhas

são duas léguas. A terra que há entre este porto e o Rio de Ipojuca

é toda alagadiça. Neste porto e Rio das Galinhas entram barcos da

costa. Do Rio das Galinhas à Ilha de Santo Aleixo é uma légua, na

qual há surgidouro e abrigo para as naus, e está afastada da terra

firme uma légua; da Ilha de Santo Aleixo ao Rio de Maracaípe

são seis léguas, onde entram caravelões, o qual tem uns ilhéus na

boca. De Maracaípe ao Rio Formoso são duas léguas, o qual tem

um arrecife ao mar defronte de si, que tem um boqueirão por

onde entram navios da costa, o qual está em nove graus, cuja terra

é escalvada mas bem provida de caça. Do Rio Formoso ao de Una

são três léguas, o qual tem na boca uma ilha de mangues da banda

do norte, a qual se alaga com a maré, e mais adiante, chegadas à

terra, tem sete ilhetas de mato. Neste Rio Una ao porto das Pedras

são quatro léguas, o qual está em nove graus e meio. Entre este e

o Rio Una se faz uma enseada muito grande, onde podem surgir e

barlaventear naus que nadem em fundo de cinco até sete braças,

porque tanto tem de fundo.

E corre-se a costa do Cabo de Santo Agostinho até este porto

das Pedras nor-nordeste su-sudoeste. Deste porto ao Rio Camaragipe são três léguas, cuja fronteira é de um banco de arrecifes

que tem algumas abertas por onde entram barcos da costa, e ficam

seguros de todo o tempo entre os arrecifes e a terra. Neste Rio de

Camaragipe entram navios de honesto porte, e na ponta da barra

dele da banda do sul tem umas barreiras vermelhas, cuja terra ao

longo do mar é escalvada até o Rio de Santo Antônio Mirim, que

está dele duas léguas, onde também entram caravelões da costa.

Do Rio de Santo Antônio Mirim ao porto Velho dos Franceses são

três léguas, onde eles costumam ancorar com as suas naus e resgatar com o gentio. Do porto Velho dos Franceses ao Rio de São

Miguel são quatro léguas, que está em dez graus, no qual entram

navios da costa, e entre um e outro entra no mar o Rio da Alagoa,

onde também entram caravelões, o qual se diz da Alagoa, por

nascer de uma que está afastada da costa, ao qual rio chamam os

índios o Porto Jaraguá. Do Rio de São Miguel ao porto Novo dos

Franceses são duas léguas, defronte do qual fazem os arrecifes que

(vão correndo a costa), uma aberta por onde os franceses costumavam entrar com suas naus, e ancoravam entre o arrecife e a

terra por ter fundo para isso, onde estavam muito seguros, e daqui

faziam seu resgate com o gentio. Do porto Novo dos Franceses

ao de Sepetiba é uma légua, do qual ao Rio de Currurupe são três

léguas no qual entram navios da costa, cuja terra ao longo do mar

é fraca, mas para dentro duas léguas é arresoada. Deste Rio do

Currurupe até o Rio de São Francisco são seis léguas.

Da ponta da barra Currurupe, contra o Rio de São Francisco se

vai armando uma enseada de duas léguas, na qual bem chegados

à terra, estão os arrecifes de D. Rodrigo, onde também se chama o

porto dos Franceses, por se, eles costumarem recolher aqui com

suas naus à abrigada desta enseada, e iam por entre os arrecifes e

a terra, com suas lanchas, tomar carga do pau de tinta no Rio de

Currurupe.

Aqui se perdeu o bispo do Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha,

com sua nau vinda da Bahia para Lisboa, em a qual vinha Antônio

Cardoso de Barros, provedor-mor que fora do Brasil, e dois cônegos e duas mulheres honradas e casadas, muitos homens nobres e

outra muita gente, que seriam mais de cem pessoas brancas, afora

escravos, a qual escapou toda deste naufrágio, mas não do gentio

caeté, que neste tempo senhoreava esta costa da boca deste Rio de

São Francisco até o da Paraíba; depois que estes caetés roubaram

este bispo e toda esta gente de quanto salvaram, os despiram e

amarraram a bom recado, e pouco a pouco os foram matando e

comendo, sem escapar mais que dois índios da Bahia com um português que sabia a língua, filho do meirinho da correição. A terra

que há por cima desta enseada até perto do Rio de São Francisco

é toda alagadiça, cuja água se ajunta toda em uma ribeira, que se

dela faz, a qual vai entrar no Rio de São Francisco até o porto das

Pedras nor-nordeste su-sudoeste, e toma da quarta de norte sul.

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