Segunda parte - Capítulo LXXXVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 161 de 271
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Segunda parte - Capítulo LXXXVI

Em que se contém a natureza de algumas aves noturnas.

Urucureá é uma ave, pontualmente como as corujas da

Espanha; umas são cinzentas e outras brancas; gritam como corujas; as quais criam no mato em tronco de árvores grossas, e em

povoado nas igrejas, de cujas alâmpadas comem o azeite.

Jucurutu é uma ave tamanha como um frango, que em povoado anda de noite pelos telhados; e no mato cria em tocas de

árvores grandes, e anda ao longo dos caminhos; e onde quer que

esteja toda a noite está gritando pelo seu nome. Esta ave é de cor

brancacenta, tem as pernas curtas, a cabeça grande com três listas

pardas por ela que parecem cutiladas, e duas penas nela de feição

de orelhas.

Há outros pássaros, a que os índios chamam ubujaús, que são

tamanhos como pintões, têm a cabeça grande, o rabo comprido; e

são todos pardos e muito cheios de penugem, os quais andam de

noite gritando “cuxaiguigui”.

Há outros pássaros do mesmo nome, menores, que são pintados, os quais andam de madrugada dando os mesmos gritos e uns

e outros criam no chão, onde põem dois ovos somente; e mantêm-

-se das frutas do mato.

Há outros pássaros pardos, a que os índios chamam oitibó,

com que têm grande agouro; os quais andam ordinariamente gritando “oitibó”, e de dia não os vê ninguém; e mantêm-se das frutas

e folhas de árvore, onde lhes amanhece.

Aos morcegos chamam os índios andura; e há alguns muito

grandes, que têm tamanhos dentes como gatos, com que mordem;

criam nos côncavos das árvores, e nas casas e lugares escuros; as

fêmeas parem quatro filhos e trazem-nos pendurados ao pescoço

com as cabeças para baixo, e pegados com as unhas ao pescoço

da mãe; quando estes morcegos mordem alguém que está dormindo de noite, fazem-no tão sutilmente que se não sente; mas a

sua mordedura é mui peçonhenta. Nas casas de purgar açúcar se

criam infinidade deles, onde fazem muito dano, sujando o açúcar

com o seu feitio, que é como de ratos; e comem muito dele.

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