Segunda parte - Capítulo LXXXVI
Em que se contém a natureza de algumas aves noturnas.
Urucureá é uma ave, pontualmente como as corujas da
Espanha; umas são cinzentas e outras brancas; gritam como corujas; as quais criam no mato em tronco de árvores grossas, e em
povoado nas igrejas, de cujas alâmpadas comem o azeite.
Jucurutu é uma ave tamanha como um frango, que em povoado anda de noite pelos telhados; e no mato cria em tocas de
árvores grandes, e anda ao longo dos caminhos; e onde quer que
esteja toda a noite está gritando pelo seu nome. Esta ave é de cor
brancacenta, tem as pernas curtas, a cabeça grande com três listas
pardas por ela que parecem cutiladas, e duas penas nela de feição
de orelhas.
Há outros pássaros, a que os índios chamam ubujaús, que são
tamanhos como pintões, têm a cabeça grande, o rabo comprido; e
são todos pardos e muito cheios de penugem, os quais andam de
noite gritando “cuxaiguigui”.
Há outros pássaros do mesmo nome, menores, que são pintados, os quais andam de madrugada dando os mesmos gritos e uns
e outros criam no chão, onde põem dois ovos somente; e mantêm-
-se das frutas do mato.
Há outros pássaros pardos, a que os índios chamam oitibó,
com que têm grande agouro; os quais andam ordinariamente gritando “oitibó”, e de dia não os vê ninguém; e mantêm-se das frutas
e folhas de árvore, onde lhes amanhece.
Aos morcegos chamam os índios andura; e há alguns muito
grandes, que têm tamanhos dentes como gatos, com que mordem;
criam nos côncavos das árvores, e nas casas e lugares escuros; as
fêmeas parem quatro filhos e trazem-nos pendurados ao pescoço
com as cabeças para baixo, e pegados com as unhas ao pescoço
da mãe; quando estes morcegos mordem alguém que está dormindo de noite, fazem-no tão sutilmente que se não sente; mas a
sua mordedura é mui peçonhenta. Nas casas de purgar açúcar se
criam infinidade deles, onde fazem muito dano, sujando o açúcar
com o seu feitio, que é como de ratos; e comem muito dele.