Segunda parte - Capítulo XXII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 97 de 271
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Segunda parte - Capítulo XXII

Em que se declara o tamanho do Rio de Matoim e os engenhos que

tem.

Entra a maré pelo Rio de Matoim acima quatro léguas, o qual

tem de boca, de terra a terra, um tiro de berço uma da outra, e, entrando por ele acima mais de uma légua, vai povoado de muitas e

mui frescas fazendas, fazendo algumas voltas, esteiros e enseadas,

e no cabo desta légua se alarga o rio muito de terra a terra; e a mão

direita por um braço acima está o famoso engenho de Paripe, que

foi de Afonso de Torres e agora é de Baltasar Pereira, mercador. A

este engenho pagam foro todas as fazendas que há no porto de

Paripe, a que também chamam do Tubarão, até a boca de Matoim,

e pelo rio acima duas léguas.

E virando deste engenho para cima sobre a mão direita, vai

tudo povoado de fazendas, e numa de Francisco Barbuda está uma

ermida de São Bento e, mais adiante, noutra fazenda, de Cristóvão

de Aguiar, está outra ermida de Nossa Senhora; e assim vai correndo esta terra até o Cabo do Salgado mui povoada de nobres

fazendas, mui ornadas de aposentos, e no cabo deste está um engenho de bois de duas moendas de Gaspar Dias Barbosa, peça de

muito preço o qual tem nele uma igreja de Santa Catarina. Junto

deste engenho está uma ribeira em que se pode fazer um engenho

de água mui bom, o qual se não faz por haver demanda sobre esta

água, entre partes que a pretendem.

Da outra banda deste engenho está assentado outro que se diz

de Sebastião da Ponte, que mói com uma ribeira que chamam

Cotejipe, o qual engenho está muito adornado de edifícios mui

aperfeiçoados; e tornando por este rio abaixo, sobre a mão direita

obra de meia légua, está uma Ilha de Jorge de Magalhães, mui formosa por estar toda lavrada de canaviais, e no meio dela num alto

tem umas nobres casas cercadas de laranjeiras arruadas, e outras

árvores, coisa muito para ver; e descendo uma légua abaixo do

engenho de Cotejipe está uma ribeira que se chama do Aratu, na

qual Sebastião de Faria tem feito um soberbo engenho de água,

com grandes edifícios de casas de purgar e de vivenda, e uma igreja de São Jerônimo, tudo de pedra e cal, no que gastou mais de

doze mil cruzados.

Meia légua deste engenho pelo rio abaixo está uma ribeira a

que chamam de Carnaibuçu, onde não está engenho feito por

haver litígio sobre esta água. Na boca desta ribeira está uma ilha

muito fresca, que é de Nuno Fernandes; a uma légua está um

engenho de bois, de que é senhorio Jorge Antunes, o qual está

mui petrechado de edifícios de casas, e tem uma igreja de Nossa

Senhora do Rosário.

Deste engenho até a boca do rio será uma légua pouco mais

ou menos, o qual está povoado de mui grandes fazendas, cujos

edifícios e canaviais estão à vista deste rio, que é mui formoso e

largo de alto até baixo.

Defronte da boca deste Rio de Matoim está a Ilha de Maré, que

começa a correr dele para cima no comprimento dela, da qual fica

dito atrás o que se podia dizer.

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