Segunda parte - Capítulo XXII
Em que se declara o tamanho do Rio de Matoim e os engenhos que
tem.
Entra a maré pelo Rio de Matoim acima quatro léguas, o qual
tem de boca, de terra a terra, um tiro de berço uma da outra, e, entrando por ele acima mais de uma légua, vai povoado de muitas e
mui frescas fazendas, fazendo algumas voltas, esteiros e enseadas,
e no cabo desta légua se alarga o rio muito de terra a terra; e a mão
direita por um braço acima está o famoso engenho de Paripe, que
foi de Afonso de Torres e agora é de Baltasar Pereira, mercador. A
este engenho pagam foro todas as fazendas que há no porto de
Paripe, a que também chamam do Tubarão, até a boca de Matoim,
e pelo rio acima duas léguas.
E virando deste engenho para cima sobre a mão direita, vai
tudo povoado de fazendas, e numa de Francisco Barbuda está uma
ermida de São Bento e, mais adiante, noutra fazenda, de Cristóvão
de Aguiar, está outra ermida de Nossa Senhora; e assim vai correndo esta terra até o Cabo do Salgado mui povoada de nobres
fazendas, mui ornadas de aposentos, e no cabo deste está um engenho de bois de duas moendas de Gaspar Dias Barbosa, peça de
muito preço o qual tem nele uma igreja de Santa Catarina. Junto
deste engenho está uma ribeira em que se pode fazer um engenho
de água mui bom, o qual se não faz por haver demanda sobre esta
água, entre partes que a pretendem.
Da outra banda deste engenho está assentado outro que se diz
de Sebastião da Ponte, que mói com uma ribeira que chamam
Cotejipe, o qual engenho está muito adornado de edifícios mui
aperfeiçoados; e tornando por este rio abaixo, sobre a mão direita
obra de meia légua, está uma Ilha de Jorge de Magalhães, mui formosa por estar toda lavrada de canaviais, e no meio dela num alto
tem umas nobres casas cercadas de laranjeiras arruadas, e outras
árvores, coisa muito para ver; e descendo uma légua abaixo do
engenho de Cotejipe está uma ribeira que se chama do Aratu, na
qual Sebastião de Faria tem feito um soberbo engenho de água,
com grandes edifícios de casas de purgar e de vivenda, e uma igreja de São Jerônimo, tudo de pedra e cal, no que gastou mais de
doze mil cruzados.
Meia légua deste engenho pelo rio abaixo está uma ribeira a
que chamam de Carnaibuçu, onde não está engenho feito por
haver litígio sobre esta água. Na boca desta ribeira está uma ilha
muito fresca, que é de Nuno Fernandes; a uma légua está um
engenho de bois, de que é senhorio Jorge Antunes, o qual está
mui petrechado de edifícios de casas, e tem uma igreja de Nossa
Senhora do Rosário.
Deste engenho até a boca do rio será uma légua pouco mais
ou menos, o qual está povoado de mui grandes fazendas, cujos
edifícios e canaviais estão à vista deste rio, que é mui formoso e
largo de alto até baixo.
Defronte da boca deste Rio de Matoim está a Ilha de Maré, que
começa a correr dele para cima no comprimento dela, da qual fica
dito atrás o que se podia dizer.