Segunda parte - Capítulo CXVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 193 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXVIII

Que trata da diversidade e estranheza das aranhas e dos lacraus.

Na Bahia se cria muita diversidade de aranhas, e tão estranhas

que convém declarar a natureza de algumas. E peguemos logo

nas que chamam nhanduçu, as quais são tamanhas como grandes

caranguejos, e muito cabeludas e peçonhentas; remetem à gente

de salto, e têm os dentes tamanhos como ratos, cujas mordeduras

são mui perigosas; e criam-se em paus podres, no côncavo deles, e

no povoado em paredes velhas.

Há outra casta de aranhas, a que os índios chamam nhanduí,

que são acostumadas em toda a parte, de que se criam tantas no

Brasil, com a umidade da terra que, se não alimpam as casas muitas vezes, não há quem se defenda delas. Estas fazem um bolso na

barriga, muito alvo, que parece de longe algodão, que é do tamanho de dois reais, e de quatro, e de oito reais, no qual bolso criam

mais de duzentas aranhas; e como podem viver sem a mãe largam

o bolso de si com elas e cada uma vai fazer seu ninho; e como esta

sevandija é tão nojenta, escusamos de dizer mais dela.

Suraju chamam os índios a um bicho como os lacraus de

Portugal, mas são tamanhos como camarões, e têm duas bocas

compridas; e, se mordem uma pessoa, está atormentada com ardor vinte e quatro horas mas não periga.

Criam-se na Bahia outros bichos da feição dos lacraus, a que

os índios chamam nhanduabiju, os quais têm o corpo tamanho

como um rato, e duas bocas tamanhas como de lagosta; os quais

são todos cheios de pelo, e muito peçonhentos, cujas mordeduras

são mui perigosas; e criam-se em tocas de árvores velhas, no podre

delas.

Não são para lembrar as imundícias de que até aqui tratamos,

porque são pouco danosas, e ao que se pode atalhar com alguns

remédios; mas à praga das formigas não se pode compadecer, porque se elas não foram, a Bahia se poderá chamar outra terra de

promissão, das quais começaremos a dizer daqui por diante.

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