Segunda parte - Capítulo CXVIII
Que trata da diversidade e estranheza das aranhas e dos lacraus.
Na Bahia se cria muita diversidade de aranhas, e tão estranhas
que convém declarar a natureza de algumas. E peguemos logo
nas que chamam nhanduçu, as quais são tamanhas como grandes
caranguejos, e muito cabeludas e peçonhentas; remetem à gente
de salto, e têm os dentes tamanhos como ratos, cujas mordeduras
são mui perigosas; e criam-se em paus podres, no côncavo deles, e
no povoado em paredes velhas.
Há outra casta de aranhas, a que os índios chamam nhanduí,
que são acostumadas em toda a parte, de que se criam tantas no
Brasil, com a umidade da terra que, se não alimpam as casas muitas vezes, não há quem se defenda delas. Estas fazem um bolso na
barriga, muito alvo, que parece de longe algodão, que é do tamanho de dois reais, e de quatro, e de oito reais, no qual bolso criam
mais de duzentas aranhas; e como podem viver sem a mãe largam
o bolso de si com elas e cada uma vai fazer seu ninho; e como esta
sevandija é tão nojenta, escusamos de dizer mais dela.
Suraju chamam os índios a um bicho como os lacraus de
Portugal, mas são tamanhos como camarões, e têm duas bocas
compridas; e, se mordem uma pessoa, está atormentada com ardor vinte e quatro horas mas não periga.
Criam-se na Bahia outros bichos da feição dos lacraus, a que
os índios chamam nhanduabiju, os quais têm o corpo tamanho
como um rato, e duas bocas tamanhas como de lagosta; os quais
são todos cheios de pelo, e muito peçonhentos, cujas mordeduras
são mui perigosas; e criam-se em tocas de árvores velhas, no podre
delas.
Não são para lembrar as imundícias de que até aqui tratamos,
porque são pouco danosas, e ao que se pode atalhar com alguns
remédios; mas à praga das formigas não se pode compadecer, porque se elas não foram, a Bahia se poderá chamar outra terra de
promissão, das quais começaremos a dizer daqui por diante.