Segunda parte - Capítulo LXVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 143 de 271
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Segunda parte - Capítulo LXVIII

Que trata das árvores que dão a embira, de que jazem cordas e estopa para calafetar navios.

Acham-se pelos matos muitas árvores de que se tira a embira

para calafetar; e comecemos a dizer das que se chamam embiroçu,

que são árvores grandes, cuja madeira é mole, e não se faz conta

dela senão para o fogo; as quais têm a casca áspera por fora, a qual

se esfolha das árvores, e se pisam muito bem, faz-se branda como

estopa, que serve para calafetar. Dão essas árvores umas flores

brancas como cebola-cecém muito formosas, e da mesma feição,

que estão fechadas da mesma maneira, as quais se abrem como

se põe o sol; e estão abertas até pela manhã, enquanto lhe não dá

o sol, e quando lhe chega se tornam a fechar, e as que são mais

velhas caem no chão, cujo cheiro é suave, mas muito mimoso; e

quando apertam com elas não cheiram.

Há uma árvore meã, que se chama ibiriba, de que se fazem esteios para os engenhos, tirantes e frechais, e outra obra de casa,

tirando tabuado, por ser má de serrar. Esta madeira é muito dura

e má de lavrar, é muito forte para todo o trabalho, e não há machado com que se possa cortar, que não quebre ou se trate mal, é

muito boa de fender; a qual os índios fazem em fios para fachos

com que vão mariscar, e para andarem de noite; e ainda que seja

verde cortada daquela hora, pega fogo nela como em alcatrão; e

não apaga o vento os fachos nela; e em casa servem-se os índios

das achas desta madeira, como candeias, com que se servem de

noite à falta delas. Estas árvores se esfolham e abrem-se à mão, as

quais se fazem todas em fios muito compridos, que se fiam como

cânhamo, de que se fazem amarras e toda a sorte de cordoalha,

que é tão forte como de cairo; e pisada esta casca muito bem, se faz

tão bianda e mais que estopa, com o que se calafetam os navios e

barcos; e para debaixo dágua é muito melhor que estopa, porque

não apodrece na água, e incha muito.

Embiriti é outra árvore meã, cuja madeira é mole, e do entrecasco dela se tira embira branca, com que faz em cordas tão alvas

como de algodão, e morrões de espingarda muito bons, que se

não apagam nunca, e fazem muito boa brasa; o qual entrecasco

se tira tão facilmente, que fazem os negros de Guiné dele panos

de cinco a seis palmos de largo, e do comprimento que querem; os

quais amassam e pisam com uns paus com que os fazem estender,

e ficam tão delgados como lona, mas muito macios, com os quais

se cingem e cobrem.

Guiaimbira é uma árvore pequena, que não é mais grossa que

a perna de um homem; cortam-na os índios em rolos de dez, doze

palmos, e esfolam-na inteira para baixo como coelho, e saem os

entrecascos inteiros; de que os índios fazem aljavas em que metem os arcos e flechas, a qual embira é muito alva; de que fazem

cordas e morrões de espingarda.

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