Segunda parte - Capítulo LXVIII
Que trata das árvores que dão a embira, de que jazem cordas e estopa para calafetar navios.
Acham-se pelos matos muitas árvores de que se tira a embira
para calafetar; e comecemos a dizer das que se chamam embiroçu,
que são árvores grandes, cuja madeira é mole, e não se faz conta
dela senão para o fogo; as quais têm a casca áspera por fora, a qual
se esfolha das árvores, e se pisam muito bem, faz-se branda como
estopa, que serve para calafetar. Dão essas árvores umas flores
brancas como cebola-cecém muito formosas, e da mesma feição,
que estão fechadas da mesma maneira, as quais se abrem como
se põe o sol; e estão abertas até pela manhã, enquanto lhe não dá
o sol, e quando lhe chega se tornam a fechar, e as que são mais
velhas caem no chão, cujo cheiro é suave, mas muito mimoso; e
quando apertam com elas não cheiram.
Há uma árvore meã, que se chama ibiriba, de que se fazem esteios para os engenhos, tirantes e frechais, e outra obra de casa,
tirando tabuado, por ser má de serrar. Esta madeira é muito dura
e má de lavrar, é muito forte para todo o trabalho, e não há machado com que se possa cortar, que não quebre ou se trate mal, é
muito boa de fender; a qual os índios fazem em fios para fachos
com que vão mariscar, e para andarem de noite; e ainda que seja
verde cortada daquela hora, pega fogo nela como em alcatrão; e
não apaga o vento os fachos nela; e em casa servem-se os índios
das achas desta madeira, como candeias, com que se servem de
noite à falta delas. Estas árvores se esfolham e abrem-se à mão, as
quais se fazem todas em fios muito compridos, que se fiam como
cânhamo, de que se fazem amarras e toda a sorte de cordoalha,
que é tão forte como de cairo; e pisada esta casca muito bem, se faz
tão bianda e mais que estopa, com o que se calafetam os navios e
barcos; e para debaixo dágua é muito melhor que estopa, porque
não apodrece na água, e incha muito.
Embiriti é outra árvore meã, cuja madeira é mole, e do entrecasco dela se tira embira branca, com que faz em cordas tão alvas
como de algodão, e morrões de espingarda muito bons, que se
não apagam nunca, e fazem muito boa brasa; o qual entrecasco
se tira tão facilmente, que fazem os negros de Guiné dele panos
de cinco a seis palmos de largo, e do comprimento que querem; os
quais amassam e pisam com uns paus com que os fazem estender,
e ficam tão delgados como lona, mas muito macios, com os quais
se cingem e cobrem.
Guiaimbira é uma árvore pequena, que não é mais grossa que
a perna de um homem; cortam-na os índios em rolos de dez, doze
palmos, e esfolam-na inteira para baixo como coelho, e saem os
entrecascos inteiros; de que os índios fazem aljavas em que metem os arcos e flechas, a qual embira é muito alva; de que fazem
cordas e morrões de espingarda.