Segunda parte - Capítulo CLXXVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 253 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXXVIII

Que trata de quem são os tupinaés.

Tupinaés são uma gente do Brasil semelhante no parecer, vida

e costumes dos tupinambás e na linguagem não têm mais diferença uns dos outros, do que têm os moradores de Lisboa dos de

entre Douro e Minho; mas a dos tupinambás é a mais polida; e

pelo nome tão semelhante destas duas castas de gentio se parece

bem claro que antigamente foi esta gente toda uma, como dizem

os índios antigos desta nação; mas têm-se por tão contrários uns

dos outros que se comem aos bocados, e não cansam de se matarem em guerras, que continuamente têm, e não tão somente

são inimigos os tupinaés dos tupinambás, mas são-no de todas

as outras nações do gentio do Brasil, e entre todas elas lhes chamam “taburas”, que quer dizer contrários. Os quais tupinaés nos

tempos antigos viveram ao longo do mar, como fica dito no título

dos tupinambás, que os lançaram dele para o sertão, onde agora

vivem, e terão ocupado uma corda de terra de mais de duzentas

léguas; mas ficam entressachados com eles, em algumas partes,

alguns tapuias, com quem têm também contínua guerra.

São os tupinaés mais atraiçoados que os tupinambás, e mais

amigos de comer carne humana, em tanto que se lhes não acha

nunca escravo dos contrários que cativam, porque todos matam e

comem, sem perdoar a ninguém. E quando as fêmeas emprenham

dos contrários, em parindo lhes comem logo a criança, a que também chamam cunhambira; e a mesma mãe ajuda logo a comer

filho que pariu.

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