Segunda parte - Capítulo XXXIII
Em que se começa a declarar a fertilidade da Bahia e como se nela dá
o gado da Espanha.
Pois se tem dado conta tão particular da grandura da Bahia de
Todos os Santos e do seu poder, é bem que digamos a fertilidade
dela um pedaço, e como produz em si as criações das aves e alimárias de Espanha e os frutos dela, que nesta terra se plantam.
Tratando em suma da fertilidade da terra, digo que acontece muitas vezes valer mais a novidade de uma fazenda que a
propriedade, pelo que os homens se mantêm honradamente com
pouco cabedal, se se querem acomodar com a terra e remediar
com os mantimentos dela, do que é muito abastada e provida.
As primeiras vacas que foram à Bahia levaram-nas de Cabo
Verde e depois de Pernambuco, as quais se dão de feição que parem cada ano e não deixam nunca de parir por velhas; as novilhas,
como são de ano, esperam o touro, e aos dois anos vêm paridas,
pelo que acontece muitas vezes mamar o bezerro na novilha e a
novilha na vaca, juntamente, o que se também vê nas éguas, cabras, ovelhas e porcas; e porque as novilhas esperam o touro de
tão tenra idade, se não consentem nos currais os touros velhos,
porque são pesados e derreiam as novilhas, quando as tomam;
as vacas são muito gordas e dão muito leite, de que se faz muita
manteiga e as mais coisas de leite que se fazem na Espanha; e depois de velhas criam algumas no bucho umas maças tamanhas
como uma pela e maiores, e quando são ainda novas têm o carão
de fora como o couro da banda do carnaz; as peles das mais velhas
são pretas e lisas que parecem vidradas no resplandor e brandura,
umas e outras são muito leves e duras, e dizem que têm virtude.
As éguas foram à Bahia de Cabo Verde, das quais se inçou a terra, de modo que, custando em princípio a sessenta mil-réis e mais,
pelo que levaram lá muitas todos os anos e cavalos, multiplicaram de uma tal maneira, que valem agora a dez e a doze mil-réis;
e há homens que têm em suas granjearias quarenta e cinquenta,
as quais parem cada ano; e esperam o cavalo poldras de um ano,
como as vacas, e algumas vezes parem duas crianças juntas. São
tão formosas as éguas da Bahia como as melhores da Espanha, das
quais nascem formosos cavalos e grandes corredores, os quais, até
a idade de cinco anos, são bem acondicionados, e pela maior parte
como passam daqui criam malícia e fazem-se mui desassossegados, mal arrendados e ciosos; assim eles como as éguas andam
desferrados, mas não faltam por isso em nada por serem mui
duros de cascos. Da Bahia levam os cavalos a Pernambuco por
mercadoria, onde valem duzentos e trezentos cruzados e mais.
Os jumentos se dão da mesma maneira que as éguas, mas são
de casta pequena; os cavalos não querem tomar as burras por nenhum caso, mas os asnos tomam as éguas por invenção e artifício,
por elas serem grandes e eles pequenos que lhe não podem chegar, e as éguas esperam-nos bem, pelo que há poucas mulas, mas
estas que, ainda que sejam pequenas, são muito formosas, bem
feitas e de muito trabalho.
As ovelhas e as cabras foram de Portugal e de Cabo Verde, as
quais se dão muito bem, umas e outras parem, tirada a primeira
paridura, duas crianças e muitas vezes três, as quais emprenham
como são de quatro meses e parem cada ano pelo menos duas
vezes, cuja carne é sempre muito gorda, mui sadia e saborosa; e
quanto mais velha é melhor, e umas e outras dão muito e bom
leite, de que se fazem queijos e manteiga.
Os cordeiros e cabritos são sempre muito gordos e saborosos; a
carne dos bodes é gorda e muito dura; a dos carneiros é magra enquanto são novos e depois de velhos não tem preço; e criam sobre
o cacho uma carne como ubre de vacas de três dedos de grosso.
A porca pare infinidade de leitões, os quais são muito tenros
e saborosos, e como a leitoa é de quatro meses espera o macho,
pelo que multiplicam coisa de espanto, porque ordinariamente
andam prenhes, de feição que parem três vezes por ano, se lhe
não falta o macho. A carne dos porcos é muito sadia e saborosa, a
qual se dá aos doentes como galinha, e come-se todo o ano por em
nenhum tempo ser prejudicial, mas não fazem os toucinhos tão
gordos como em Portugal, salvo os que se criam nas capitanias de
São Vicente e nas do Rio de Janeiro.
As galinhas da Bahia são maiores e mais gordas que as de
Portugal, e grandes poedeiras e muito saborosas; mas é de espantar que, como são de três meses, esperam o galo, e os frangões da
mesma idade tomam as fêmeas, os quais são feitos galos e tão tenros, saborosos e gordos como se não viu em outra parte.
As pombas da Espanha se dão na Bahia, mas fazem-lhes muito
nojo as cobras que lhes comem os ovos e os filhos, pelo que se não
podem criar em pombais.
Os galipavos se criam e também fazem tão formosos como na
Espanha, cuja carne é muito gorda e saborosa, os quais se criam
sem mais cerimônias que as galinhas. E também se dão muito bem
os patos e gansos da Espanha, cuja carne muito gorda é saborosa.