Segunda parte - Capítulo XX
Em que se declaram os engenhos de açúcar que há neste Rio de Pirajá.
Entrando por este esteiro, pondo os olhos na terra firme, tem
uma formosa vista de três engenhos de açúcar, e outras muitas
fazendas mui formosas da vista do mar, e no cabo do salgado se
mete nele uma formosa ribeira de água, com que mói um engenho
de açúcar de Sua Majestade, que ali está feito com uma igreja de
São Bartolomeu, freguesia daquele limite, o qual engenho anda arrendado em seiscentas e cinquenta arrobas de açúcar branco cada
ano. Pelo sertão deste engenho, meia légua dele, outro de Diogo da
Rocha de Sá, que mói com outra ribeira, o qual está muito ornado
de edifícios com uma igreja de São Sebastião, muito bem concertada. À mão esquerda deste engenho de Sua Majestade está outro de
João de Barros Cardoso, meia légua para a banda da cidade até onde
este esteiro faz um braço por onde se serve com suas barcas; o qual
engenho tem grande aferida e fábrica de escravos, grandes edifícios e outra muita granjearia de roças, canaviais e currais de vacas,
onde também está uma ermida de Nossa Senhora de Encarnação,
muito bem concertada de todo o necessário. E entre um engenho
e outro está uma casa de cozer meles com muita fábrica, a qual é
de Antônio Nunes Reimão. À mão direita deste engenho de Sua
Majestade está outro de D. Leonor Soares, mulher que foi de Simão
da Gama de Andrade, o qual mói com uma ribeira de água com
grande aferida e está bem fabricado. Este Rio de Pirajá é muito
farto de pescado e marisco, de que se mantêm a cidade e fazendas
de sua vizinhança, no qual andem sempre sete ou oito barcos de
pescar com redes, onde se toma muito peixe, e no inverno, em tempo de tormenta, pescam dentro dele os pescadores de jangadas dos
moradores da cidade e os das fazendas duas léguas à roda, e sempre
tem peixe, de que todos se remedeiam.