Segunda parte - Capítulo CLXV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 240 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXV

Que trata de como este gentio se cura em suas enfermidades.

São os tupinambás mui sujeitos à doença das boubas, que se

pegam uns aos outros mormente enquanto são meninos, porque

se não guardam de nada; e têm para si que as hão de ter tarde ou

cedo, e que o bom é terem-nas enquanto são meninos, os quais

não fazem outro remédio senão fazê-las secar, quando lhe saem

para fora, o que fazem com as tingirem com jenipapo; e quando

isto não basta, curam-lhes estas bostelas das boubas com a folha

de caraoba, de cuja virtude temos já feito menção, e como se estas

bostelas secam, têm para si que estão sãos deste mau humor, e na

verdade não têm dores nas juntas como se elas secam. Em alguns

tempos e lugares, mais que outros, são estes índios doentes de terçãs e quartãs, que lhes nascem de andar pela calma, sem nada na

cabeça e, quando estão mais suados se banharem com água fria,

metendo-se nos rios e nas fontes, muitas vezes ao dia pelo tempo

da calma; ou quando trabalham, que estão cansados e suados; às

quais febres não fazem nenhuma cura senão comendo uns mingaus, que são uns caldos de farinha de carimã, como já fica dito,

que são muito leves e sadios; e untam-se com água do jenipapo,

com o que ficam todos tintos de preto, ao que têm grande devoção.

Curam estes índios algumas apostemas e bexigas com sumo de

ervas de virtude, que há entre eles, com que fazem muitas curas

muito notáveis, como já fica dito atrás; e quando se sentem carregados da cabeça, sarjam nas fontes, e aos meninos sarjam-nos

na pernas, quando têm febre, mas em seco; o que fazem as velhas

com um dente de cotia muito agudo, que têm para isso.

Curam as grandes feridas e flechadas com umas ervas, que chamam cabureíba, que é milagrosa, e com outras ervas, de cujas virtudes fica dito atrás no seu título; com as quais curam o cano, que

se lhes enche muitas vezes de câncer; e as flechadas penetrantes e

outras feridas, de que se veem em perigo, curam por um estranho

modo, fazendo em cima do fogo um leito de varas largas umas

das outras, sobre as quais deitam os feridos, com as feridas boca

abaixo em cima deste fogo, pelas quais com a quentura se lhes sai

todo o sangue que têm dentro e a umidade; e ficam as feridas sem

nenhuma umidade; as quais depois curam com óleo e o bálsamo,

ou ervas, de que já fizemos menção, com o que têm saúde poucos

dias; e não há entre este gentio médicos assinalados, mas são-no

muito bons os recochilhados. Destes índios andarem sempre nus,

e das fregueirices que fazem dormindo no chão, são muitas vezes

doentes de corrimentos, a que eles chamam caruaras, de que lhes

doem as juntas; das quais são os feiticeiros grandes médicos, chupando-lhes com a boca o lugar onde lhes dói, onde às vezes lhes

metem os dentes, e tiram da boca algum pedaço de ferro, ou outra

coisa, que lhes metem na cabeça tirar daquele lugar onde chupavam, e que quando lhes doía lhes saíra fora, onde lhes tingem com

jenipapo, com que dizem que se acha logo bom.

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