Segunda parte - Capítulo CLXV
Que trata de como este gentio se cura em suas enfermidades.
São os tupinambás mui sujeitos à doença das boubas, que se
pegam uns aos outros mormente enquanto são meninos, porque
se não guardam de nada; e têm para si que as hão de ter tarde ou
cedo, e que o bom é terem-nas enquanto são meninos, os quais
não fazem outro remédio senão fazê-las secar, quando lhe saem
para fora, o que fazem com as tingirem com jenipapo; e quando
isto não basta, curam-lhes estas bostelas das boubas com a folha
de caraoba, de cuja virtude temos já feito menção, e como se estas
bostelas secam, têm para si que estão sãos deste mau humor, e na
verdade não têm dores nas juntas como se elas secam. Em alguns
tempos e lugares, mais que outros, são estes índios doentes de terçãs e quartãs, que lhes nascem de andar pela calma, sem nada na
cabeça e, quando estão mais suados se banharem com água fria,
metendo-se nos rios e nas fontes, muitas vezes ao dia pelo tempo
da calma; ou quando trabalham, que estão cansados e suados; às
quais febres não fazem nenhuma cura senão comendo uns mingaus, que são uns caldos de farinha de carimã, como já fica dito,
que são muito leves e sadios; e untam-se com água do jenipapo,
com o que ficam todos tintos de preto, ao que têm grande devoção.
Curam estes índios algumas apostemas e bexigas com sumo de
ervas de virtude, que há entre eles, com que fazem muitas curas
muito notáveis, como já fica dito atrás; e quando se sentem carregados da cabeça, sarjam nas fontes, e aos meninos sarjam-nos
na pernas, quando têm febre, mas em seco; o que fazem as velhas
com um dente de cotia muito agudo, que têm para isso.
Curam as grandes feridas e flechadas com umas ervas, que chamam cabureíba, que é milagrosa, e com outras ervas, de cujas virtudes fica dito atrás no seu título; com as quais curam o cano, que
se lhes enche muitas vezes de câncer; e as flechadas penetrantes e
outras feridas, de que se veem em perigo, curam por um estranho
modo, fazendo em cima do fogo um leito de varas largas umas
das outras, sobre as quais deitam os feridos, com as feridas boca
abaixo em cima deste fogo, pelas quais com a quentura se lhes sai
todo o sangue que têm dentro e a umidade; e ficam as feridas sem
nenhuma umidade; as quais depois curam com óleo e o bálsamo,
ou ervas, de que já fizemos menção, com o que têm saúde poucos
dias; e não há entre este gentio médicos assinalados, mas são-no
muito bons os recochilhados. Destes índios andarem sempre nus,
e das fregueirices que fazem dormindo no chão, são muitas vezes
doentes de corrimentos, a que eles chamam caruaras, de que lhes
doem as juntas; das quais são os feiticeiros grandes médicos, chupando-lhes com a boca o lugar onde lhes dói, onde às vezes lhes
metem os dentes, e tiram da boca algum pedaço de ferro, ou outra
coisa, que lhes metem na cabeça tirar daquele lugar onde chupavam, e que quando lhes doía lhes saíra fora, onde lhes tingem com
jenipapo, com que dizem que se acha logo bom.