Segunda parte - Capítulo CLIX
Em que se declara o modo da granjearia dos tupinambás e suas
habilidades.
Quando os tupinambás vão às suas roças, não trabalham senão
das sete horas da manhã até ao meio-dia, e os muito diligentes até
horas de véspera; e não comem neste tempo senão depois destas
horas, que se vêm para suas casas; os machos costumam a roçar os
matos, e os queimam e alimpam a terra deles; e as fêmeas plantam
o mantimento e o alimpam; os machos vão buscar a lenha com
que se aquentam e se servem, porque não dormem sem fogo, ao
longo das redes, que é a sua cama; as fêmeas vão buscar a água à
fonte e fazem de comer; e os machos costumam ir lavar as redes
aos rios, quando estão sujas.
Não fazem os tupinambás entre si outras obras-primas que balaios de folhas de palma, e outras vasilhas da mesma folha a seu
modo, e do seu uso; fazem arcos e flechas, e alguns empalhados e
lavrados de branco e preto, feitio de muito artifício; fazem cestos
de varas, a que chamam samburá, e outras vasilhas em lavores,
como as de rota da Índia; fazem carapuças e capas de penas de
pássaros, e outras obras de pena de seu uso, e sabem dar tinta de
vermelho e amarelo às penas brancas; e também contrafazem as
penas dos papagaios com sangue de rãs, arrancando-lhes as verdes, e fazem-lhes nascer outras, amarelas; fazem mais estes índios,
os que são principais, redes lavradas de lavores de esteiras, e de
outros laços, e umas cordas tecidas, a que chamam muçuranas,
de algodão, que têm o feitio dos cabos de cabresto que vêm de Fez.
Quando este gentio quer tomar muito peixe nos rios de água
doce e nos esteiros de água salgada, os atravessam com uma tapagem de varas, e batem o peixe de cima para baixo; onde lhe lançam
muita soma de umas certas ervas pisadas, a que chamam timbó,
com o que se embebeda o peixe de maneira que se vem acima da
água como morto; onde tomam às mãos muita soma dele.
As mulheres deste gentio não cozem, nem lavam; somente
fiam algodão, de que não fazem teias, como puderam, porque não
sabem tecer; fazem deste fiado as redes em que dormem, mas não
são lavradas, e umas fitas com passamanes e algumas mais largas,
com que enastram os cabelos. As mulheres já de idade têm cuidado de fazer a farinha de que se mantêm, e de trazer a mandioca das
roças às costas para a casa; e as que são muito velhas têm cuidado
de fazer vasilhas de barro a mão como são os potes em que fazem
os vinhos, e fazem alguns tamanhos que levam tanto como uma
pipa, quais e outros, menores, fervem os vinhos que bebem; fazem mais estas velhas, panelas, púcaros e alguidares a seu uso, em
que cozem a farinha, e outros em que a deitam e em que comem,
lavrados de tintas de cores; a qual louça cozem numa cova que
fazem no chão; e põem-lhe a lenha por cima; e têm e creem estas
índias que se cozer esta louça outra pessoa, que não seja a que a
fez, que há de arrebentar no fogo; as quais velhas ajudam também
a fazer a farinha que se faz no seu lanço. As fêmeas destes gentios
são muito afeiçoadas a criar cachorros para os maridos levarem à
caça, e quando elas vão fora levam-nos às costas; as quais também
folgam de criar galinhas e outros pássaros em suas casas. As quais,
quando com seu costume, alimpam-se com um bordão que têm
sempre junto de si, que levam na mão quando vão fora de casa; e
não se pejam de se alimparem diante de gente, nem de as verem
comer piolho, o que fazem quando se catam nas cabeças umas às
outras; e como os encontra a que os busca, os dá à que os trazia na
cabeça, que logo os trinca entre os dentes, o que não fazem para
comê-los, mas em vingança de as morderem.