Segunda parte - Capítulo CLIX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 234 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLIX

Em que se declara o modo da granjearia dos tupinambás e suas

habilidades.

Quando os tupinambás vão às suas roças, não trabalham senão

das sete horas da manhã até ao meio-dia, e os muito diligentes até

horas de véspera; e não comem neste tempo senão depois destas

horas, que se vêm para suas casas; os machos costumam a roçar os

matos, e os queimam e alimpam a terra deles; e as fêmeas plantam

o mantimento e o alimpam; os machos vão buscar a lenha com

que se aquentam e se servem, porque não dormem sem fogo, ao

longo das redes, que é a sua cama; as fêmeas vão buscar a água à

fonte e fazem de comer; e os machos costumam ir lavar as redes

aos rios, quando estão sujas.

Não fazem os tupinambás entre si outras obras-primas que balaios de folhas de palma, e outras vasilhas da mesma folha a seu

modo, e do seu uso; fazem arcos e flechas, e alguns empalhados e

lavrados de branco e preto, feitio de muito artifício; fazem cestos

de varas, a que chamam samburá, e outras vasilhas em lavores,

como as de rota da Índia; fazem carapuças e capas de penas de

pássaros, e outras obras de pena de seu uso, e sabem dar tinta de

vermelho e amarelo às penas brancas; e também contrafazem as

penas dos papagaios com sangue de rãs, arrancando-lhes as verdes, e fazem-lhes nascer outras, amarelas; fazem mais estes índios,

os que são principais, redes lavradas de lavores de esteiras, e de

outros laços, e umas cordas tecidas, a que chamam muçuranas,

de algodão, que têm o feitio dos cabos de cabresto que vêm de Fez.

Quando este gentio quer tomar muito peixe nos rios de água

doce e nos esteiros de água salgada, os atravessam com uma tapagem de varas, e batem o peixe de cima para baixo; onde lhe lançam

muita soma de umas certas ervas pisadas, a que chamam timbó,

com o que se embebeda o peixe de maneira que se vem acima da

água como morto; onde tomam às mãos muita soma dele.

As mulheres deste gentio não cozem, nem lavam; somente

fiam algodão, de que não fazem teias, como puderam, porque não

sabem tecer; fazem deste fiado as redes em que dormem, mas não

são lavradas, e umas fitas com passamanes e algumas mais largas,

com que enastram os cabelos. As mulheres já de idade têm cuidado de fazer a farinha de que se mantêm, e de trazer a mandioca das

roças às costas para a casa; e as que são muito velhas têm cuidado

de fazer vasilhas de barro a mão como são os potes em que fazem

os vinhos, e fazem alguns tamanhos que levam tanto como uma

pipa, quais e outros, menores, fervem os vinhos que bebem; fazem mais estas velhas, panelas, púcaros e alguidares a seu uso, em

que cozem a farinha, e outros em que a deitam e em que comem,

lavrados de tintas de cores; a qual louça cozem numa cova que

fazem no chão; e põem-lhe a lenha por cima; e têm e creem estas

índias que se cozer esta louça outra pessoa, que não seja a que a

fez, que há de arrebentar no fogo; as quais velhas ajudam também

a fazer a farinha que se faz no seu lanço. As fêmeas destes gentios

são muito afeiçoadas a criar cachorros para os maridos levarem à

caça, e quando elas vão fora levam-nos às costas; as quais também

folgam de criar galinhas e outros pássaros em suas casas. As quais,

quando com seu costume, alimpam-se com um bordão que têm

sempre junto de si, que levam na mão quando vão fora de casa; e

não se pejam de se alimparem diante de gente, nem de as verem

comer piolho, o que fazem quando se catam nas cabeças umas às

outras; e como os encontra a que os busca, os dá à que os trazia na

cabeça, que logo os trinca entre os dentes, o que não fazem para

comê-los, mas em vingança de as morderem.

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