Primeira parte - Capítulo IV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 5 de 271
Obra Menu

Primeira parte - Capítulo IV

Em que se dão em suma algumas informações que se têm deste Rio

das Amazonas.

Como não há coisa que se encubra aos homens que querem

cometer grandes empresas, não pôde estar encoberto este rio do

mar Doce ou das Amazonas ao Capitão Francisco de Orellana que,

andando na conquista do Peru em companhia do Governador

Francisco Pizarro, e indo por seu mandado com certa gente de

cavalo descobrindo a terra, entrou por ela adentro tanto espaço

que se achou perto do nascimento deste rio. E vendo-o caudaloso,

fez junto dele embarcações, segundo o costume daquelas partes,

nas quais se embarcou com a gente que trazia e se veio por esse

rio abaixo, no qual se houveram de perder por levar grande fúria a correnteza, e com muito trabalho tornou a tomar porto em

povoado, na qual jornada teve muitos encontros de guerra com

o gentio e com um grande exército de mulheres que com ele

pelejaram com arcos e flexas, de onde o rio tomou o nome das

Amazonas. Livrando-se este capitão deste perigo e dos mais por

onde passou, veio tanto por este rio abaixo até que chegou ao

mar; e dele foi ter a uma ilha que se chama a Margarita, donde se

passou à Espanha. Dando suas informações ao imperador Carlos

V , que está em glória, lhe ordenou uma armada de quatro naus

para cometer esta empresa, na qual partiu do porto de S. Lucar

com sua mulher para ir povoar a boca deste rio, e o ir conquistando por ele acima, o que não houve efeito por na mesma boca

deste rio falecer este capitão de sua doença, de onde sua mulher se

tornou com a mesma armada para a Espanha.

Neste tempo – pouco mais ou menos – andava correndo

a costa do Brasil em uma caravela, como aventureiro, Luís de

Melo, filho do alcaide-mor de Elvas, o qual, querendo passar a

Pernambuco, desgarrou com o tempo e as águas por esta costa

abaixo, e vindo correndo a ribeira, entrou no Rio do Maranhão, e

neste das Amazonas, de cuja grandeza se contentou muito; e tomou língua do gentio de cuja fertilidade ficou satisfeito e muito

mais das grandes informações que na Ilha da Margarita lhe deram alguns soldados, que ali achou, que ficaram da companhia

do Capitão Francisco de Orellana, os quais facilitaram a Luís de

Melo a navegação deste rio, e que com pouco cabedal e trabalho

adquirisse por ele acima muito ouro e prata. Do que movido Luís

de Melo, se veio à Espanha, e alcançou licença de El-Rei D. João III

de Portugal para armar à sua custa e cometer esta empresa, para

o que se fez prestes na cidade de Lisboa; e partiu do porto dela

com três naus e duas caravelas com as quais se perdeu nos baixos

do Maranhão, com a maior parte da gente que levava; e ele com

algumas pessoas escaparam nos batéis e uma caravela em que foi

ter às Antilhas. E depois deste fidalgo ser em Portugal, se passou à

Índia, onde acabou valorosos feitos; e vindo-se para o Reino muito

rico e com tenção de tornar a cometer esta jornada, acabou no

caminho na nau São Francisco, que desapareceu sem até hoje se

saber novas dele.

1/1
Menu

Fazer anotação