Primeira parte - Capítulo IV
Em que se dão em suma algumas informações que se têm deste Rio
das Amazonas.
Como não há coisa que se encubra aos homens que querem
cometer grandes empresas, não pôde estar encoberto este rio do
mar Doce ou das Amazonas ao Capitão Francisco de Orellana que,
andando na conquista do Peru em companhia do Governador
Francisco Pizarro, e indo por seu mandado com certa gente de
cavalo descobrindo a terra, entrou por ela adentro tanto espaço
que se achou perto do nascimento deste rio. E vendo-o caudaloso,
fez junto dele embarcações, segundo o costume daquelas partes,
nas quais se embarcou com a gente que trazia e se veio por esse
rio abaixo, no qual se houveram de perder por levar grande fúria a correnteza, e com muito trabalho tornou a tomar porto em
povoado, na qual jornada teve muitos encontros de guerra com
o gentio e com um grande exército de mulheres que com ele
pelejaram com arcos e flexas, de onde o rio tomou o nome das
Amazonas. Livrando-se este capitão deste perigo e dos mais por
onde passou, veio tanto por este rio abaixo até que chegou ao
mar; e dele foi ter a uma ilha que se chama a Margarita, donde se
passou à Espanha. Dando suas informações ao imperador Carlos
V , que está em glória, lhe ordenou uma armada de quatro naus
para cometer esta empresa, na qual partiu do porto de S. Lucar
com sua mulher para ir povoar a boca deste rio, e o ir conquistando por ele acima, o que não houve efeito por na mesma boca
deste rio falecer este capitão de sua doença, de onde sua mulher se
tornou com a mesma armada para a Espanha.
Neste tempo – pouco mais ou menos – andava correndo
a costa do Brasil em uma caravela, como aventureiro, Luís de
Melo, filho do alcaide-mor de Elvas, o qual, querendo passar a
Pernambuco, desgarrou com o tempo e as águas por esta costa
abaixo, e vindo correndo a ribeira, entrou no Rio do Maranhão, e
neste das Amazonas, de cuja grandeza se contentou muito; e tomou língua do gentio de cuja fertilidade ficou satisfeito e muito
mais das grandes informações que na Ilha da Margarita lhe deram alguns soldados, que ali achou, que ficaram da companhia
do Capitão Francisco de Orellana, os quais facilitaram a Luís de
Melo a navegação deste rio, e que com pouco cabedal e trabalho
adquirisse por ele acima muito ouro e prata. Do que movido Luís
de Melo, se veio à Espanha, e alcançou licença de El-Rei D. João III
de Portugal para armar à sua custa e cometer esta empresa, para
o que se fez prestes na cidade de Lisboa; e partiu do porto dela
com três naus e duas caravelas com as quais se perdeu nos baixos
do Maranhão, com a maior parte da gente que levava; e ele com
algumas pessoas escaparam nos batéis e uma caravela em que foi
ter às Antilhas. E depois deste fidalgo ser em Portugal, se passou à
Índia, onde acabou valorosos feitos; e vindo-se para o Reino muito
rico e com tenção de tornar a cometer esta jornada, acabou no
caminho na nau São Francisco, que desapareceu sem até hoje se
saber novas dele.