Segunda parte - Capítulo CLV
Em que se declara o com que os tupinambás se fazem bizarros.
Para os tupinambás se fazerem bizarros, usam de muitas bestialidades mui estranhas, como é fazerem depois de homens três
e quatro buracos nos beiços de baixo, onde metem pedras, com
grandes pontas para fora; e outros furar os beiços de cima, também como os de baixo, onde também metem pedras redondas,
verdes e pardas, que ficam inseridas nas faces, como espelhos de
borracha; nas quais há alguns que têm nas faces dois e três buracos, em que metem pedras, com pontas para fora; e há alguns
que têm todos estes buracos, que, com as pedras neles, parecem os
demônios; os quais sofrem estas dores por parecerem temerosos
a seus contrários.
Usam também entre si umas carapuças de penas amarelas e
vermelhas, que põem na cabeça, que lha cobre até as orelhas; os
quais fazem colares para o pescoço de dentes dos contrários, onde
trazem logo juntos dois, três mil dentes, e nos pés uns cascavéis
de certas ervas da feição da castanha, cujo tinido se ouve muito
longe. Ornam-se mais estes índios, para suas bizarrices, de uma
roda de penas de ema, que atam sobre as ancas, que lhes faz tamanho vulto que lhes cobre as costas todas de alto a baixo; e para se
fazerem mais feios se tingem todos de jenipapo, que parecem negros da Guiné, e tingem os pés de uma tinta vermelha muito fina,
e as faces; e põem sobraçadas muitas contas de búzios, e outras
pequenas de penas nos braços; e, quando se ataviam com todas
estas peças, levam uma espada de pau marchetada com cascas
de ovos de pássaros de cores diversas, e na empunhadura umas
penas grandes de pássaros, e certas campainhas de penas amarelas, a qual espada lançam, atada ao pescoço, por detrás; e levam
na mão esquerda seu arco e flechas, com dentes de tubarão; e na
direita um maracá, que é um cabaço cheio de pedrinhas, com seu
cabo, com que vai tangendo e cantando; e fazem estas bizarrices
para quando na sua aldeia há grandes vinhos, ou em outra, onde
vão folgar; pelas quais andam cantando e tangendo sós, e depois
misturados com outros; com os quais atavios se fazem temidos e
estimados.