Segunda parte - Capítulo CLV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 230 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLV

Em que se declara o com que os tupinambás se fazem bizarros.

Para os tupinambás se fazerem bizarros, usam de muitas bestialidades mui estranhas, como é fazerem depois de homens três

e quatro buracos nos beiços de baixo, onde metem pedras, com

grandes pontas para fora; e outros furar os beiços de cima, também como os de baixo, onde também metem pedras redondas,

verdes e pardas, que ficam inseridas nas faces, como espelhos de

borracha; nas quais há alguns que têm nas faces dois e três buracos, em que metem pedras, com pontas para fora; e há alguns

que têm todos estes buracos, que, com as pedras neles, parecem os

demônios; os quais sofrem estas dores por parecerem temerosos

a seus contrários.

Usam também entre si umas carapuças de penas amarelas e

vermelhas, que põem na cabeça, que lha cobre até as orelhas; os

quais fazem colares para o pescoço de dentes dos contrários, onde

trazem logo juntos dois, três mil dentes, e nos pés uns cascavéis

de certas ervas da feição da castanha, cujo tinido se ouve muito

longe. Ornam-se mais estes índios, para suas bizarrices, de uma

roda de penas de ema, que atam sobre as ancas, que lhes faz tamanho vulto que lhes cobre as costas todas de alto a baixo; e para se

fazerem mais feios se tingem todos de jenipapo, que parecem negros da Guiné, e tingem os pés de uma tinta vermelha muito fina,

e as faces; e põem sobraçadas muitas contas de búzios, e outras

pequenas de penas nos braços; e, quando se ataviam com todas

estas peças, levam uma espada de pau marchetada com cascas

de ovos de pássaros de cores diversas, e na empunhadura umas

penas grandes de pássaros, e certas campainhas de penas amarelas, a qual espada lançam, atada ao pescoço, por detrás; e levam

na mão esquerda seu arco e flechas, com dentes de tubarão; e na

direita um maracá, que é um cabaço cheio de pedrinhas, com seu

cabo, com que vai tangendo e cantando; e fazem estas bizarrices

para quando na sua aldeia há grandes vinhos, ou em outra, onde

vão folgar; pelas quais andam cantando e tangendo sós, e depois

misturados com outros; com os quais atavios se fazem temidos e

estimados.

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