Segunda parte - Capítulo CXCI
Em que se apontam os mais aparelhos que faltam para as
embarcações.
Pois que temos aparelhos para lançar as embarcações que se
podem fazer na Bahia ao mar, convém que lhe demos os aparelhos com que estas embarcações possam navegar; e demos-lhe
primeiro as bombas, que se fazem na terra muito boas, de duas
peças porque têm extremadas madeiras para elas; e para navios
pequenos há umas árvores que a natureza furou por dentro, que
servem de bombas nos navios da costa, as quais são muito boas.
Pois os poleames se fazem de uma árvore que chamam jenipapo, que é muito bom de lavrar, e nunca fende quando está seco, de
que se farão de toda a sorte. Enxárcia para as embarcações tem a
Bahia em muita abastança, porque se faz da mesma embira com
que calafetam, antes de se amassar, aberta em febras a mão, a qual
se fia tão bem como o linho, e é mais durável e mais rija que a de
esparto, e tão boa como a do Cairo; e desta mesma embira se fazem
amarras muito fortes e grossas e de muita dura; e há na terra embira em abastança para se poder fazer muita quantidade de enxárcia
e amarras; e para amarras tem a terra outro remédio das barbas de
umas palmeiras bravas que lhes nascem ao pé, de comprimento
de quinze e vinte palmos, de que se fazem amarras muito fortes e
que nunca apodrecem, de que há muita quantidade pelos matos
para se fazerem muitas quando cumprir. Pelo que não falta mais
agora para estas armadas que as velas, para o que há facilíssimo
remédio, quando as não houver de lonas e pano de breu, pois em
todos os anos se fazem grandes carregações de algodão, de que
se dá muito na terra; do qual podem fazer grandes teais de pano
grosso, que é muito bom para velas, de muita dura e muito leves,
de que andam velejados os navios e barcos da costa; e dentro da
Bahia trazem muitos barcos as velas de pano de algodão que se fia
na terra, para o que há muitas tecedeiras, que se ocupam em tecer
teais de algodão, que se gastam em vestidos dos índios, escravos
de Guiné, e outra muita gente branca de trabalho.