Segunda parte - Capítulo CXCIV
Em que se trata das pedras verdes e azuis que se acham no sertão da
Bahia.
Deve-se também notar que se acham também no sertão da
Bahia umas pedras azuis-escuras muito duras e de grande fineza,
de que os índios fazem pedras que metem nos beiços, e fazem-nas
muito roliças e de grande lustro, roçando-as com outras pedras,
das quais se podem fazer peças de muita estima e grande valor, as
quais se acham muito grandes; e entre elas há algumas que têm
umas veias aleonadas que lhes dão muita graça.
No mesmo sertão há muitas pedreiras de pedras verdes coalhadas, muito rijas, de que o gentio também faz pedras para trazer
nos beiços, roliças e compridas, as quais lavram como as de cima,
com o que ficam muito lustrosas; do que se podem lavrar peças
muito ricas e para se estimarem entre príncipes e grandes senhores, por terem a cor muito formosa; e podem se tirar da pedreira
pedaços de sete e oito palmos, e estas pedras têm grande virtude
contra a dor de cólica.
Em muitas outras partes da Bahia, nos cavoucos que fazem
as invernadas na terra, se acham pedaços de finíssimo cristal, e
de mistura algumas pontas oitavadas como diamante, lavradas
pela natureza que têm muita formosura e resplandor. E não há
dúvida senão que entrando bem pelo sertão desta terra há serras
de cristal finíssimo, que se enxerga o resplandor delas de muito
longe, e afirmaram alguns portugueses que as viram que parecem
de longe as serras da Espanha quando estão cobertas de neve, os
quais e muitos mamelucos e índios que viram essas serras dizem
que está tão bem criado e formoso este cristal em grandeza, que se
podem tirar pedaços inteiros de dez, doze palmos de comprido, e
de grande largura e fornimento, do qual cristal pode vir à Espanha
muita quantidade para poderem fazer dele obras mui notáveis.