Segunda parte - Capítulo CLXXV
Que trata das cerimônias que os tupinambás fazem quando morre
algum, e como os enterram.
É costume entre os tupinambás que, quando morre qualquer
deles, o levam a enterrar embrulhado na sua rede em que dormia,
e o parente mais chegado lhe há de fazer a cova; e quando o levam
a enterrar vão-no acompanhando mulher, filhas e parentes, se as
tem, as quais vão pranteando até a cova, com os cabelos soltos
sobre o rosto, estão-no pranteando até que fica bem coberto de
terra; de onde se tornam para sua casa, onde a viúva chora o marido por muitos dias; e se morrem as mulheres destes tupinambás,
é costume que os maridos lhes façam a cova, e ajudem a levar às
costas a defunta, e se não tem já marido o irmão ou parente mais
chegado lhe faz a cova.
E quando morre algum principal da aldeia em que vive, e depois de morto alguns dias, antes de o enterrarem fazem as cerimônias seguintes. Primeiramente o untam com mel todo, e por cima
do mel o empenam com penas de pássaros de cores, e põem-lhe
uma carapuça de penas na cabeça e todos os mais enfeites que
eles costumam trazer nas suas festas; e têm-lhe feito na mesma
casa e lanço onde ele vivia, uma cova muito funda e grande, com
sua estacada por derredor, para que tenha a terra que não caia sobre o defunto, e armam-lhe sua rede embaixo, de maneira que não
toque o morto no chão; na qual rede o metem assim enfeitado, e
põem-lhe junto da rede seu arco e flechas, e a sua espada, e o maracá com que costumava tanger, e fazem-lhe fogo ao longo da rede
para se aquentar, e põem-lhe de comer num alguidar, e água num
cabaço, como galinha; e quando esta matalotagem está feita, e lhe
põem também sua cangoeira de fumo na mão, lançam-lhe muita
soma de madeira igual no andar da rede de maneira que não toque
no corpo, e sobre esta madeira muita soma de terra, com ramas
debaixo primeiro, para que não caia terra sobre o defunto; sobre
a qual sepultura vive a mulher, como dantes. E quando morre algum moço, filho de algum principal, que não tem muita idade,
metem-no em cócoras, atados os joelhos com a barriga, em um
pote em que ele caiba, e enterram o pote na mesma casa debaixo
do chão, onde o filho e o pai, se é morto, são chorados muitos dias.