Segunda parte - Capítulo XCVI
Que trata de outra casta de tigres e de alimárias daninhas.
Criam-se no Rio de São Francisco umas alimárias tamanhas
como poldros, às quais os índios chamam jaguaruçu, que são pintadas de ruivo e preto e malhas grandes; e têm as quatro presas
dos dentes do tamanho de um palmo; criam-se na água deste rio,
no sertão; de onde saem à terra, a fazer suas presas em antas; e
ajuntam-se três e quatro destas alimárias, para levarem nos dentes
a anta ao rio, onde a comem à sua vontade, e a outras alimárias; e
também aos índios que podem apanhar.
Jaguaracanguçu é outra alimária e casta de tigres ou onça da
que tratamos já; e são muito maiores, cuja cabeça é tão grande
como de um boi novilho. Criam-se estas alimárias pelo sertão,
longe do mar, e têm as feições e mais condições dos tigres de que
primeiro falamos. Quando essas alimárias matam algum índio
que se encarniçam nele, fazem despovoar toda uma aldeia, porque em saindo alguma pessoa dela fora de casa não escapa que a
não matem e comam.
Há outra alimária, a que o gentio chama suçurana, que é do
tamanho de um rafeiro, tem o cabelo comprido e macio, o rabo
como cão, o rosto carrancudo, as mãos como rafeiro, mas tem
maiores unhas e mui agudas e voltadas; vivem da rapina, têm
muita ligeireza para correr e saltar; e são semelhantes na rapina
ao lobo, e matam os índios se os podem alcançar, e pela terra
adentro as há muito maiores que na vizinhança do mar. Para os
índios matarem estas alimárias, esperam-nas em cima das árvores, de onde as flecham, e lhes comem a carne; as quais não têm
mais que uma só tripa.