Segunda parte - Capítulo VI
Em que se declara o clima da Bahia, como cruzam os ventos na sua
costa e correm as águas.
A Bahia de Todos os Santos está arrumada em treze graus e um
terço, como fica dito atrás; onde os dias em todo o ano são quase
iguais com as noites, e a diferença que têm os dias de verão aos
do inverno é uma hora até hora e meia. E começa-se o inverno
desta província no mês de abril, e acaba-se por todo o julho, em
o qual tempo não faz frio que obrigue aos homens se chegarem
ao fogo, senão ao gentio, porque andam despidos. Em todo este
tempo do inverno correm as águas ao longo da costa a cem léguas
ao mar dela, das partes do sul para os rumos do norte, por quatro
e cinco meses, e às vezes cursam os ventos do sul, sudoeste e lés -
-sueste, que há travessia na costa de Porto Seguro até o Cabo Santo
Agostinho.
Começa-se o verão em agosto como em Portugal em março, e
dura até todo o mês de março, no qual tempo reinam os ventos
nordestes e lés-nordestes e correm as águas na costa ao som dos
ventos da parte do norte para o sul, pela qual razão se não navega
ao longo desta costa senão com as monções ordinárias. Em todo o
tempo do ano, quando chove, fazem os céus da Bahia as mais formosas mostras de nuvens de mil cores e grande resplendor, que se
nunca viram noutra parte, o que causa grande admiração. E há-se
de notar que nesta comarca da Bahia, em rompendo a luz da manhã, nasce com ela juntamente o sol, assim no inverno como no
verão. E em se recolhendo o sol à tarde, escurece juntamente o dia
e cerra-se a noite; a que matemáticos deem razões suficientes que
satisfaçam a quem quiser saber este segredo, porque os mareantes
e filósofos que a esta terra foram, nem outros homens de bom juízo não têm atinado até agora com a causa por que isso assim seja.