Segunda parte - Capítulo VI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 81 de 271
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Segunda parte - Capítulo VI

Em que se declara o clima da Bahia, como cruzam os ventos na sua

costa e correm as águas.

A Bahia de Todos os Santos está arrumada em treze graus e um

terço, como fica dito atrás; onde os dias em todo o ano são quase

iguais com as noites, e a diferença que têm os dias de verão aos

do inverno é uma hora até hora e meia. E começa-se o inverno

desta província no mês de abril, e acaba-se por todo o julho, em

o qual tempo não faz frio que obrigue aos homens se chegarem

ao fogo, senão ao gentio, porque andam despidos. Em todo este

tempo do inverno correm as águas ao longo da costa a cem léguas

ao mar dela, das partes do sul para os rumos do norte, por quatro

e cinco meses, e às vezes cursam os ventos do sul, sudoeste e lés -

-sueste, que há travessia na costa de Porto Seguro até o Cabo Santo

Agostinho.

Começa-se o verão em agosto como em Portugal em março, e

dura até todo o mês de março, no qual tempo reinam os ventos

nordestes e lés-nordestes e correm as águas na costa ao som dos

ventos da parte do norte para o sul, pela qual razão se não navega

ao longo desta costa senão com as monções ordinárias. Em todo o

tempo do ano, quando chove, fazem os céus da Bahia as mais formosas mostras de nuvens de mil cores e grande resplendor, que se

nunca viram noutra parte, o que causa grande admiração. E há-se

de notar que nesta comarca da Bahia, em rompendo a luz da manhã, nasce com ela juntamente o sol, assim no inverno como no

verão. E em se recolhendo o sol à tarde, escurece juntamente o dia

e cerra-se a noite; a que matemáticos deem razões suficientes que

satisfaçam a quem quiser saber este segredo, porque os mareantes

e filósofos que a esta terra foram, nem outros homens de bom juízo não têm atinado até agora com a causa por que isso assim seja.

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