Segunda parte - Capítulo C
Em que se declara a natureza dos porcos-do-mato que há na Bahia.
Criam-se nos matos da Bahia porcos monteses, a que os índios
chamam tajaçu, que são de cor parda e pequenos; tudo têm semelhante com o porco, senão o rabo, que não têm mais comprido
que uma polegada; e têm umbigo nas costas; as fêmeas parem
muitos no mato, por onde andam em bandos, comendo as frutas
dele; onde os matam com cachorros e armadilhas, e às flechadas;
os quais não têm banha, nem toucinho, senão uma pele viscosa; a
carne é toda magra, mas saborosa e carregada para quem não tem
boa disposição.
Tajaçutirica é outra casta de porcos monteses, maiores que os
primeiros, que têm os dentes como os monteses da Espanha; e
os índios que os flecham hão de ter, prestes, aonde se acolham,
porque, se se não põem em salvo com muita presteza, não lhes
escapam; os quais são muito ligeiros e bravos, e têm também o
umbigo nas costas; e não têm banha, nem toucinho, mas a carne
mais gostosa que os outros; e em tudo mais são como eles.
Tajaçueté é outra casta de porcos monteses que são maiores
que os de que fica dito, e têm toucinho como os monteses da
Espanha, e grandes presas e o umbigo nas costas, mas não são tão
bravos e perigosos para os caçadores; os quais os fazem levantar
com os cachorros para os flecharem; e estes e os mais andam
em bandos pelo mato, onde as fêmeas parem muitos filhos; e no
tempo das frutas entram pelas aldeias dos índios e pelas casas; os
quais fazem muito dano nas roças e nos canaviais de açúcar. A
estes porcos cheira o embigo muito mal; e se, quando os matam,
lhos não cortam logo, cheira-lhes a carne muito ao mato; e se lhos
cortam é muito saborosa.