Segunda parte - Capítulo CXIX
Que trata das formigas que mais dano fazem, que se chamam saúvas.
Muito havia que dizer das formigas do Brasil, o que se deixa de
fazer tão copiosamente como se poderá fazer, por se escusar prolixidade; mas diremos em breve de algumas, começando nas que
mais dano fazem na terra, a que o gentio chama “ussaúba”, que é
a praga do Brasil, as quais são como as grandes de Portugal, mas
mordem muito e onde chegam destroem as roças de mandioca, as
hortas de árvores da Espanha, as laranjeiras, romeiras e parreiras.
Se estas formigas não foram, houvera na Bahia muitas vinhas e
uvas de Portugal; as quais formigas vêm de muito longe de noite
buscar uma roça de mandioca, e trilham o caminho por onde passam, como se fosse gente por ele muitos dias, e não salteiam senão
de noite; e por atalharem a não comerem as árvores a que fazem
nojo, põem-lhe um cesto de barro ao redor do pé, cheio de água,
e se de dia lhe secou a água, ou lhe caiu uma palha de noite que
a atravesse, trazem tais espias que são logo disso avisadas; e passa
logo por aquela palha tamanha multidão delas que antes que seja
manhã, lhe dão com toda a folha no chão; e se as roças e árvores
estão cheias de mato de redor, não lhes fazem mal, mas tanto que
as veem limpas, como que entende que tem gosto a gente disto,
saltam nelas de noite, e dão-lhe com a folha no chão, para a levarem para os formigueiros; e não há dúvida senão que trazem espias pelo campo, que levam aviso aos formigueiros, porque se viu
muitas vezes irem três e quatro formigas para os formigueiros, e
encontrarem outras no caminho e virarem com elas, e tornarem
todas carregadas, e entrarem assim no formigueiro, e saírem-se
logo dele infinidade delas a buscarem de comer à roça, onde foram
as primeiras; e têm tantos ardis que fazem espanto. E como se destas formigas não diz o muito que delas há que dizer, é melhor não
dizer mais senão que se elas não foram que o despovoará muita
parte da Espanha para irem povoar o Brasil; pois se dá nele tudo o
que se pode desejar, o que esta maldição impede, de maneira que
tira o gosto aos homens de plantarem senão aquilo sem o que não
podem viver na terra.