Segunda parte - Capítulo CLII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 227 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLII

Que trata da maneira dos casamentos dos tupinambás e seus amores.

A mulher verdadeira dos tupinambás é a primeira que o homem teve e conversou, e não têm em seus casamentos outra

cerimônia mais que dar o pai a filha a seu genro, e como têm ajuntamento natural, ficam casados; e os índios principais têm mais

de uma mulher, e o que mais mulheres tem, se tem por mais honrado e estimado; mas elas dão todas a obediência à mais antiga, e

todas a servem, a qual tem armado sua rede junto da do marido,

e entre uma e outra tem sempre fogo aceso; e as outras mulheres

têm as suas redes, em que dormem, mais afastadas, e fogo entre

cada duas redes; e quando o marido se quer ajuntar com qualquer

delas, vai-se lançar com ela na rede, onde se detém só aquele espaço deste contentamento, e torna-se para o seu lugar; e sempre

há entre estas mulheres ciúmes, mormente a mulher primeira;

porque pela maior parte são mais velhas que as outras, e de menos

gentileza, o qual ajuntamento é público diante de todos. E quando

o principal não é o maior da aldeia dos índios das outras casas, o

que tem mais filhos é mais rico e mais estimado, e mais honrado

de todos, porque são as filhas mui requestadas dos mancebos que

as namoram; os quais servem os pais das damas dois e três anos

primeiro que lhas deem por mulheres; e não as dão senão aos que

melhor os servem, a quem os namoradores fazem a roça, e vão

pescar e caçar para os sogros que desejam de ter, e lhe trazem a lenha do mato; e, quando os sogros lhes entregam as damas, eles se

vão agasalhar no lanço dos sogros com as mulheres, e apartam-se

dos pais, mães e irmãos, e mais parentela com que antes estavam;

e por nenhum caso se entrega a dama a seu marido enquanto lhe

não vem seu costume; quando lhe vem é obrigada a moça a trazer

atado pela cinto um fio de algodão, e em cada bucho dos braços

outro, para que venha à notícia de todos. E, quando o marido lhe

leva a flor, é obrigada a noiva a quebrar estes fios, para que seja notório que é feita dona; e ainda que uma moça destas seja deflorada

por quem não seja seu marido, ainda que seja em segredo, há de

romper os fios da sua virgindade, que de outra maneira cuidará

que a leva logo o diabo, os quais desastres lhes acontecem muitas

vezes; mas o pai não se enoja por isso, porque não falta quem lha

peça por mulher com essa falta; e se algum principal da aldeia

pede a outro índio a filha por mulher, o pai lha dá sendo menina;

e aqui se não entende o preceito acima, porque ele a leva para o

seu lanço, e a vai criando até que lhe venha seu costume, e antes

disso por nenhum caso lhe toca.

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