Segunda parte - Capítulo CLII
Que trata da maneira dos casamentos dos tupinambás e seus amores.
A mulher verdadeira dos tupinambás é a primeira que o homem teve e conversou, e não têm em seus casamentos outra
cerimônia mais que dar o pai a filha a seu genro, e como têm ajuntamento natural, ficam casados; e os índios principais têm mais
de uma mulher, e o que mais mulheres tem, se tem por mais honrado e estimado; mas elas dão todas a obediência à mais antiga, e
todas a servem, a qual tem armado sua rede junto da do marido,
e entre uma e outra tem sempre fogo aceso; e as outras mulheres
têm as suas redes, em que dormem, mais afastadas, e fogo entre
cada duas redes; e quando o marido se quer ajuntar com qualquer
delas, vai-se lançar com ela na rede, onde se detém só aquele espaço deste contentamento, e torna-se para o seu lugar; e sempre
há entre estas mulheres ciúmes, mormente a mulher primeira;
porque pela maior parte são mais velhas que as outras, e de menos
gentileza, o qual ajuntamento é público diante de todos. E quando
o principal não é o maior da aldeia dos índios das outras casas, o
que tem mais filhos é mais rico e mais estimado, e mais honrado
de todos, porque são as filhas mui requestadas dos mancebos que
as namoram; os quais servem os pais das damas dois e três anos
primeiro que lhas deem por mulheres; e não as dão senão aos que
melhor os servem, a quem os namoradores fazem a roça, e vão
pescar e caçar para os sogros que desejam de ter, e lhe trazem a lenha do mato; e, quando os sogros lhes entregam as damas, eles se
vão agasalhar no lanço dos sogros com as mulheres, e apartam-se
dos pais, mães e irmãos, e mais parentela com que antes estavam;
e por nenhum caso se entrega a dama a seu marido enquanto lhe
não vem seu costume; quando lhe vem é obrigada a moça a trazer
atado pela cinto um fio de algodão, e em cada bucho dos braços
outro, para que venha à notícia de todos. E, quando o marido lhe
leva a flor, é obrigada a noiva a quebrar estes fios, para que seja notório que é feita dona; e ainda que uma moça destas seja deflorada
por quem não seja seu marido, ainda que seja em segredo, há de
romper os fios da sua virgindade, que de outra maneira cuidará
que a leva logo o diabo, os quais desastres lhes acontecem muitas
vezes; mas o pai não se enoja por isso, porque não falta quem lha
peça por mulher com essa falta; e se algum principal da aldeia
pede a outro índio a filha por mulher, o pai lha dá sendo menina;
e aqui se não entende o preceito acima, porque ele a leva para o
seu lanço, e a vai criando até que lhe venha seu costume, e antes
disso por nenhum caso lhe toca.