Primeira parte - Capítulo X Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 11 de 271
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Primeira parte - Capítulo X

Em que se declara a terra e costa do porto dos Búzios até a Baía da

Traição, e como João de Barros mandou povoar a sua capitania.

Do porto dos Búzios a Itacoatigara são nove léguas, e este rio

se chama deste nome por estar em uma ponta dele uma pedra de

feição de pipa como ilha, a que o gentio por este respeito pôs este

nome, que quer dizer “ponta da pipa”. Mas o próprio nome do rio

é Garatuí, o qual está em altura de seis graus. Entre esta ponta e

porto dos Búzios está a enseada de Tabatinga, onde também há

surgidouro e abrigada para navios em que detrás da ponta costumavam ancorar naus francesas e fazer sua carga de pau de tinta.

De Itacoatigara ao Rio de Goaramataí são duas léguas, o qual está

em seis graus esforçados; de Goaramataí ao Rio de Caramative são

duas léguas, o qual está em seis graus e 1/4, e entre um e outro rio

está a enseada Aratipicaba, onde dos arrecifes para dentro entram

naus francesas e fazem sua carga.

Deste porto para baixo, pouco mais ou menos, se estende a

capitania de João de Barros, feitor que foi da casa da Índia, a quem

El-Rei D. João III de Portugal fez mercê de cinquenta léguas de costa partindo com a capitania de Pero Lopes de Sousa, de Itamaracá.

Desejoso João de Barros de se aproveitar desta mercê, fez à sua custa uma armada de navios em que embarcou muitos moradores

com todo o necessário para se poder povoar esta sua capitania e

na qual mandou dois filhos seus que partiram com ela, e prosseguindo logo sua viagem em busca da costa do Brasil foram tomar

terra junto do Rio do Maranhão, em cujos baixos se perderam.

Deste naufrágio escapou muita gente, com a qual os filhos de

João de Barros se recolheram em uma ilha que está na boca deste

Rio do Maranhão, aonde passaram muitos trabalhos, por se não

poderem comunicar desta ilha com os moradores da capitania de

Pernambuco, e das demais capitanias, os quais depois de gastarem

alguns anos, despovoaram e se vieram para este Reino. Nesta armada, e em outros navios que João de Barros depois mandou por

sua conta em socorro de seus filhos, gastou muita soma de mil

cruzados, sem desta despesa lhe resultar nenhum proveito, como

fica dito atrás. Também lhe mataram os potiguaras muita gente

onde se chama o Rio Pequeno.

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