Segunda parte - Capítulo LV
Em que se contêm muitas castas de palmeiras que dão fruto pela terra da Bahia no sertão e algumas junto ao mar.
Como há tanta diversidade de palmeiras que dão fruto na terra
da Bahia, convém que as arrumemos todas neste capítulo, começando logo numas a que os índios chamam pindobas, que são
muito altas e grossas, que dão flor como as tamareiras e o fruto
em cachos grandes como os coqueiros, cada um dos quais é tamanho que não pode um negro mais fazer que levá-lo às costas; nos
quais cachos tem os cocos tamanhos como peras pardas grandes,
e têm a casca de fora como um coco, e outra dentro de um dedo
de grosso, muito dura, e dentro dela um miolo maciço com esta
casca, donde se tira com trabalho, o qual é tamanho como uma
bolota, e mui alvo e duro para quem tem ruins dentes; e se não
é de vez, é muito tenro e saboroso; e de uma maneira e outra é
bom mantimento para o gentio quando não tem mandioca, o
qual faz destes cocos azeite para as suas mezinhas. Do olho destas
palmeiras se tiram palmitos façanhosos de cinco a seis palmos de
comprido, e tão grossos como a perna de um homem. De junto do
olho destas palmeiras tira o gentio três e quatro folhas cerradas,
que se depois abrem a mão, com as quais cobrem as casas, a que
chamam pindobuçu, com o que fica uma casa por dentro, depois
de coberta, muito formosa; a qual palma no verão é fria, e no inverno quente; e se não fora o perigo do fogo, é muito melhor e
mais sadia cobertura que a da telha.
Anajá-mirim é outra casca de palmeiras bravas que dão muito
formosos palmitos, e o fruto como as palmeiras acima; mas são
os cocos menores e as palmas que se lhe tiram de junto dos olhos
têm a folha mais miúda, com que também cobrem as casas onde
se não acham as palmeiras acima. Os cachos destas palmeiras e
das outras acima nascem numa maçaroca parda de dois a três palmos de comprido, e como este cacho quer lançar a flor arrebenta
esta maçaroca ao comprido e sai o cacho para fora, e a maçaroca
fica muito lisa por dentro e dura como pau; da qual se servem os
índios como de gamelas, e ficam da feição de almadia.
Há outras palmeiras bravas que chamam japeraçaba, que também são grandes árvores; mas não serve a folha para cobrir casas,
porque é muito rara e não cobre bem, mas serve para remédio de
quem caminha pelo mato cobrir com elas as choupanas, as quais
palmeiras dão também palmito no olho e seus cachos de cocos,
tamanhos como um punho, com miolo como os mais, que também serve de mantimento ao gentio, e de fazerem azeite; o qual e
o de cima têm o cheiro muito fortum.
Pati é outra casta de palmeiras bravas muito compridas e delgadas; as mais grossas são pelo pé como a coxa de um homem,
têm a rama pequena, mole e verde-escura. Os palmitos que dão
são pequenos, e os cocos tamanhos como nozes, com o seu miolo
pequeno que se come. Destas árvores se usa muito, porque têm a
casca muito dura, que se fende ao machado muito bem, da qual se
faz ripa para as casas, a que chamam pataíba, que é tão dura que
com trabalho a passa um prego; e por dentro é estopenta, a qual
ripa quando se lavra por dentro cheira a maçãs maduras.
Há outras palmeiras, que chamam buri, que têm muitos nós,
que também dão cocos em cachos, mas são miúdos; estas têm a
folha da parte de fora verde e da de dentro branca, com pelo como
marmelos, as quais também dão palmitos muito bons.
Piçandós são umas palmeiras bravas e baixas que se dão em
terras fracas; e dão uns cachos de cocos pequenos e amarelos por
fora, que é mantimento para quem anda pelo sertão, muito bom
porque tem o miolo muito saboroso como avelãs, e também dão
palmitos.
As principais palmeiras bravas da Bahia são as que chamam
ururucuri, que não são muito altas, e dão uns cachos de cocos
muito miúdos, do tamanho e cor dos abricoques, aos quais se
come o de fora, como os abricoques, por ser brando e de sofrível
sabor; e quebrando-lhe o caroço, donde se lhe tira um miolo como
o das avelãs, que é alvo e tenro e muito saboroso, os quais coquinhos são mui estimados de todos. Estas palmeiras têm o tronco
fofo, cheio de um miolo alvo e solto como o cuscuz, e mole; e
quem anda pelo sertão tira esse miolo e coze-o em um alguidar ou
tacho, sobre o fogo, onde se lhe gasta a umidade, e é mantimento
muito sadio, substancial e proveitoso aos que andam pelo sertão,
a que chamam farinha de pau.
Patioba é como palmeira nova no tronco e olho, e dá umas
folhas de cinco a seis palmos de comprido e dois e três de largo;
é de cor verde e tesa como pergaminho, e serve para cobrir as casas no lugar onde se não acha outra, e para as choupanas dos que
caminham; quando se estas folhas secam, fazem-se em pregas tão
lindas como de leques da Índia; e, quando nascem, saem feitas em
pregas, como está um leque estando fechado; dá palmitos pequenos, mas mui gostosos.