Segunda parte - Capítulo LV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 130 de 271
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Segunda parte - Capítulo LV

Em que se contêm muitas castas de palmeiras que dão fruto pela terra da Bahia no sertão e algumas junto ao mar.

Como há tanta diversidade de palmeiras que dão fruto na terra

da Bahia, convém que as arrumemos todas neste capítulo, começando logo numas a que os índios chamam pindobas, que são

muito altas e grossas, que dão flor como as tamareiras e o fruto

em cachos grandes como os coqueiros, cada um dos quais é tamanho que não pode um negro mais fazer que levá-lo às costas; nos

quais cachos tem os cocos tamanhos como peras pardas grandes,

e têm a casca de fora como um coco, e outra dentro de um dedo

de grosso, muito dura, e dentro dela um miolo maciço com esta

casca, donde se tira com trabalho, o qual é tamanho como uma

bolota, e mui alvo e duro para quem tem ruins dentes; e se não

é de vez, é muito tenro e saboroso; e de uma maneira e outra é

bom mantimento para o gentio quando não tem mandioca, o

qual faz destes cocos azeite para as suas mezinhas. Do olho destas

palmeiras se tiram palmitos façanhosos de cinco a seis palmos de

comprido, e tão grossos como a perna de um homem. De junto do

olho destas palmeiras tira o gentio três e quatro folhas cerradas,

que se depois abrem a mão, com as quais cobrem as casas, a que

chamam pindobuçu, com o que fica uma casa por dentro, depois

de coberta, muito formosa; a qual palma no verão é fria, e no inverno quente; e se não fora o perigo do fogo, é muito melhor e

mais sadia cobertura que a da telha.

Anajá-mirim é outra casca de palmeiras bravas que dão muito

formosos palmitos, e o fruto como as palmeiras acima; mas são

os cocos menores e as palmas que se lhe tiram de junto dos olhos

têm a folha mais miúda, com que também cobrem as casas onde

se não acham as palmeiras acima. Os cachos destas palmeiras e

das outras acima nascem numa maçaroca parda de dois a três palmos de comprido, e como este cacho quer lançar a flor arrebenta

esta maçaroca ao comprido e sai o cacho para fora, e a maçaroca

fica muito lisa por dentro e dura como pau; da qual se servem os

índios como de gamelas, e ficam da feição de almadia.

Há outras palmeiras bravas que chamam japeraçaba, que também são grandes árvores; mas não serve a folha para cobrir casas,

porque é muito rara e não cobre bem, mas serve para remédio de

quem caminha pelo mato cobrir com elas as choupanas, as quais

palmeiras dão também palmito no olho e seus cachos de cocos,

tamanhos como um punho, com miolo como os mais, que também serve de mantimento ao gentio, e de fazerem azeite; o qual e

o de cima têm o cheiro muito fortum.

Pati é outra casta de palmeiras bravas muito compridas e delgadas; as mais grossas são pelo pé como a coxa de um homem,

têm a rama pequena, mole e verde-escura. Os palmitos que dão

são pequenos, e os cocos tamanhos como nozes, com o seu miolo

pequeno que se come. Destas árvores se usa muito, porque têm a

casca muito dura, que se fende ao machado muito bem, da qual se

faz ripa para as casas, a que chamam pataíba, que é tão dura que

com trabalho a passa um prego; e por dentro é estopenta, a qual

ripa quando se lavra por dentro cheira a maçãs maduras.

Há outras palmeiras, que chamam buri, que têm muitos nós,

que também dão cocos em cachos, mas são miúdos; estas têm a

folha da parte de fora verde e da de dentro branca, com pelo como

marmelos, as quais também dão palmitos muito bons.

Piçandós são umas palmeiras bravas e baixas que se dão em

terras fracas; e dão uns cachos de cocos pequenos e amarelos por

fora, que é mantimento para quem anda pelo sertão, muito bom

porque tem o miolo muito saboroso como avelãs, e também dão

palmitos.

As principais palmeiras bravas da Bahia são as que chamam

ururucuri, que não são muito altas, e dão uns cachos de cocos

muito miúdos, do tamanho e cor dos abricoques, aos quais se

come o de fora, como os abricoques, por ser brando e de sofrível

sabor; e quebrando-lhe o caroço, donde se lhe tira um miolo como

o das avelãs, que é alvo e tenro e muito saboroso, os quais coquinhos são mui estimados de todos. Estas palmeiras têm o tronco

fofo, cheio de um miolo alvo e solto como o cuscuz, e mole; e

quem anda pelo sertão tira esse miolo e coze-o em um alguidar ou

tacho, sobre o fogo, onde se lhe gasta a umidade, e é mantimento

muito sadio, substancial e proveitoso aos que andam pelo sertão,

a que chamam farinha de pau.

Patioba é como palmeira nova no tronco e olho, e dá umas

folhas de cinco a seis palmos de comprido e dois e três de largo;

é de cor verde e tesa como pergaminho, e serve para cobrir as casas no lugar onde se não acha outra, e para as choupanas dos que

caminham; quando se estas folhas secam, fazem-se em pregas tão

lindas como de leques da Índia; e, quando nascem, saem feitas em

pregas, como está um leque estando fechado; dá palmitos pequenos, mas mui gostosos.

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