Segunda parte - Capítulo CLXVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 243 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXVIII

Que trata de como os tupinambás dão em seus contrários.

Tanto que os tupinambás chegam duas jornadas da aldeia de

seus contrários não fazem fogo de dia, por não serem sentidos

deles pelos fumos que vêm de longe; e ordenam-se de maneira

que possam dar nos contrários de madrugada, e em conjunção de

lua cheia para andarem a derradeira jornada de noite pelo luar,

e tomarem seus contrários despercebidos e descuidados; e em

chegando à aldeia dão todos juntos tamanho urro, gritando, que

fazem com isso e com suas buzinas e tamboris grande espanto;

e desta maneira dão o seu salto nos contrários; e do primeiro

encontro não perdoam a grande nem a pequeno, para o que vão

apercebidos de uns paus à feição de arrochos, com uma quina por

uma ponta, com o que da primeira pancada que dão na cabeça ao

contrário, lha fazem em pedaços. E há alguns destes bárbaros tão

carniceiros que cortam aos vencidos, depois de mortos, suas naturas, assim aos machos como às fêmeas, as quais levam para darem

a suas mulheres que as guardam depois de mirradas no fogo, para

nas suas festas as darem de comer aos maridos por relíquias, o que

lhes dura muito tempo; e levam os contrários que não mataram

na briga, cativos, para depois os matarem em terreiro com as festas costumadas.

No despojo desta guerra não tem o principal coisa certa, e cada

um leva o que pode apanhar e, quando os vencedores se recolhem,

põem fogo às casas da aldeia em que deram, que são cobertas de

palmas até o chão. E recolhem-se logo andando todo o que lhes

resta do dia, e toda a noite pelo luar com o passo mais apressado,

trazendo suas espias detrás, por se arrecearem de se ajuntarem

muitos do contrário, e virem tomar vingança do acontecido a

seus vizinhos, como cada dia lhes acontece. E sendo caso que os

tupinambás achem seus contrários apercebidos com a sua cerca

feita, e eles se atrevem a os cercar, fazem-lhes por de redor outra

contracerca de rama e espinhos muito liada com madeira que metem no chão, a que chamam caiçá, pela qual enquanto verde não

há coisa que os rompa, e ficam com ela seguros das flechas dos

contrários, a qual caiçá fazem bem chegada à cerca dos contrários,

e de noite falam mil roncarias, e jogam as pulhas de parte a parte,

até que os tupinambás abalroam a cerca ou levantam cerco, se se

não atrevem com ele, ou por lhes faltar o mantimento.

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