Segunda parte - Capítulo CXIV
Que trata dos lagartos e dos camaleões. Nas lagoas e rios de água doce se criam uns lagartos a que os índios chamam jacaré, dos quais há alguns tamanhos como um
homem; e têm a cabeça como um grande lebréu; estes lagartos
são todos cobertos de conchas muito rijas, os quais não remetem
à gente, antes fogem dela; e mantêm-se do peixe que tomam, e da
erva que comem ao longo da água; e há alguns negros que lhes
têm perdido o medo, e se vão a eles, chamando-os pelo seu nome;
e vão-se chegando a eles até que os tomam às mãos e os matam
para os comerem; cuja carne é um tanto adocicada, e tão gorda
que tem na barriga banha como um porco, a qual é alva e saborosa e cheira bem. Os testículos dos machos cheiram como os dos
gatos-de-algália, e às fêmeas cheira-lhes a carne de junto do vaso
muito bem.
No mato se criam outros lagartos, a que os índios chamam
sinimbus, que também são muito grandes, mas não tamanhos
como os jacarés; estes remetem à gente; criam-se nos troncos das
árvores; cuja carne é muito boa e saborosa.
Criam-se no mato outros lagartos tamanhos como os de cima,
a que os índios chamam tejuaçu, os quais são mansos, e criam-se
em cova na terra; mantêm-se das frutas que buscam pelo mato;
cuja carne é havida por muito boa e saborosa.
Pelos inatos se criam outros lagartos pequenos pintados como
os da Espanha, a que os índios chamam jacarepinima, os quais
criam por entre as pedras, e em tocas de árvores, com os quais têm
as cobras grandes brigas.
Anijuacangas são outros bichos que não têm nenhuma diferença dos camaleões, umas são muito maiores que os da África,
cuja cor naturalmente é verde, a qual mudam como fazem os da
África, e estão logo presos a uma janela um mês sem comer nem
beber; e estão sempre virados com o rosto para o vento, de que se
mantêm; e não querem comer coisa que lhes deem, do que comem
os outros animais; são muito pesados no andar, e tomam-nos às
mãos, sem se defenderem; os quais têm o rabo muito comprido, e
têm um modo de barbatanas nele como os cações.