Segunda parte - Capítulo XLII
Em que se declara que coisa é farinha de guerra, e como se jaz da
carimã, e outras coisas.
Farinha de guerra se diz, porque o gentio do Brasil costuma
chamar-lhe assim pela sua língua, porque quando determinam
de a ir fazer a seus contrários algumas jornadas fora de sua casa,
se provêm desta farinha, que levam às costas ensacada em uns fardos de folhas que para isso fazem, da feição de uns de couro, em
que da Índia trazem especiaria e arroz; mas são muito menores,
onde levam esta farinha muito calcada e enfolhada, de maneira
que, ainda que lhe caia num rio, e que lhe chova em cima, não
se molha. Para se fazer esta farinha, se faz prestes muita soma de
carimã, a qual, depois de rapada, a pisam num pilão que para isso
têm, e como é bem pisada a peneiram muito bem, como no capítulo antes fica dito. E como têm esta carimã prestes, tomam as
raízes da mandioca por curtir, e ralam como convém uma soma
delas, e, depois de espremidas, como se faz à primeira farinha que
dissemos atrás, lançam uma pouca desta massa num alguidar que
está sobre o fogo, e por cima dela uma pouca de farinha da carimã e, embrulhada uma com outra, a vão mexendo sobre o fogo,
e assim como se vai cozendo lhe vão lançando do pó da carimã, e
trazem-na sobre o fogo, até que fica muito enxuta e torrada, que
a tiram fora.
Desta farinha de guerra usam os portugueses que não têm
roças, e os que estão fora delas na cidade, com que sustentam
seus criados e escravos, e nos engenhos se provêm dela para sustentarem a gente em tempo de necessidade, e os navios que vêm
do Brasil para estes reinos não têm outro remédio de matalotagem, para se sustentar a gente até Portugal, senão o da farinha
de guerra; e um alqueire dela da medida da Bahia, que tem dois
de Portugal, se dá de regra a cada homem para um mês, a qual
farinha de guerra é muito sadia e desenfastiada, e molhada no
caldo da carne ou do peixe fica branda e tão saborosa como cuscuz. Também costumam levar para o mar matalotagem de beijus
grossos muito torrados, que dura um ano, e mais sem se danarem,
como a farinha de guerra. Desta carimã e pó dela bem peneirado
fazem os portugueses muito bom pão, e bolos amassados com
leite e gemas de ovos, e desta mesma massa fazem mil invenções
de beilhós, mais saborosos que de farinha de trigo, com os mesmos materiais, e pelas festas fazem as frutas doces com a massa
desta carimã, em lugar da farinha de trigo, e se a que vai à Bahia
do reino não é muito alva e fresca, querem as mulheres antes a
farinha de carimã, que é alvíssima e lavra-se melhor com a qual
fazem tudo muito primo.