Segunda parte - Capítulo II
Em que se contém, quem foi Tomé de Sousa e de suas qualidades.
Tomé de Sousa foi um fidalgo honrado, ainda que bastardo,
homem avisado, prudente e mui experimentado na guerra de
África e da Índia, onde se mostrou mui valoroso cavaleiro em todos os encontros em que se achou; pelos quais serviços e grande
experiência que tinha, mereceu fiar dele El-Rei tamanha empresa
como esta que lhe encarregou, confiando de seus merecimentos
e grandes qualidades que daria a conta dela que dele esperava; a
quem deu por ajudadores ao Dr. Pedro Borges, para com ele servir
de ouvidor-geral, pôr o governo da justiça em ordem em todas as
capitanias; e a Antônio Cardoso de Barros para também ordenar
neste Estado o tocante à Fazenda de Sua Alteza, porque até então não havia ordem numa coisa nem noutra, e cada um vivia ao
som da sua vontade. O qual Tomé de Sousa também levou em sua
companhia padres da Companhia de Jesus, para doutrinarem e
converterem o gentio na nossa santa fé católica, e a outros sacerdotes, para ministrarem os sacramentos nos tempos devidos. E,
no tempo que Tomé de Sousa desembarcou, achou na Vila Velha
a um Diogo Álvares, de alcunha o Caramuru, grande língua dos
gentios, o qual, depois da morte de Francisco Pereira, fez pazes
com o gentio; e, com elas feitas, se veio dos Ilhéus a povoar o assento das casas em que dantes vivia, que era afastado da povoação,
onde se fortificou e recolheu com cinco genros que tinha, e outros
homens, que o acompanharam, dos que escaparam da desventura
de Francisco Pereira, os quais, ora com armas, ora com boas razões, se foram defendendo e sustentando até a chegada de Tomé
de Sousa, por cujo mandado Diogo Álvares quietou o gentio e o
fez dar obediência ao governador, e oferecer-se ao servir; o qual
gentio em seu tempo viveu muito quieto e recolhido, andando
ordinariamente trabalhando na fortificação da cidade a troco do
resgate que lhe por isso davam.