Segunda parte - Capítulo CXL Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 215 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXL

Que trata da qualidade das ostras que há na Bahia. As mais formosas ostras que se viram são as do Brasil; e há infinidade delas, como se vê na Bahia, onde lhes os índios chamam

leriuçu, as quais estão sempre cheias, e têm ordinariamente grandes miolos; e em algumas partes os têm tamanhos que se não podem comer senão cortadas em talhadas, as quais, cruas, assadas e

fritas, são muito gostosas; as boas se dão dentro da vasa no salgado,

e pelos rios onde se junta a água doce ao salgado se criam muitas

na vasa, e muito grandes, mas quando há água do monte, estão

mui doces e sensabores. E há tantas ostras na Bahia e em outras

partes, que se carregam barcos delas, muito grandes, para fazerem

cal das cascas, de que se faz muita e muito boa para as obras, a qual

é muito alva; e há engenho em cujas obras se gastou mais de três

mil moios de cal destas ostras; as quais são muito mais sadias que

as da Espanha.

Nos mangues se criam outras ostras pequenas, a que os índios

chamam leri-mirim, e criam-se nas raízes e ramos deles até onde

lhes chega a maré de preamar; as quais raízes e ramos estão cobertos destas ostras, que se não enxerga o pau, e estão umas sobre outras; as quais são pequenas, mas muito gostosas; e nunca acabam,

porque tiradas umas, logo lhes nascem outras; e em todo o tempo

são muito boas e muito leves.

Há outras ostras, a que os índios chamam leripebas, que se

criam em baixos de areia de pouca água, as quais são como as salmoninas que se criam no Rio de Lisboa, defronte do Barreiro, da

feição de vieiras. Estas leripebas são um marisco de muito gosto, e

estão na conjunção da lua nova muito cheias, cujo miolo é sobre o

teso e muito excelente; nas quais se acham grãos de aljôfar pequenos, e criam-se logo serras destas leripebas umas sobre as outras,

muito grandes; e já aconteceu descer com a maré serra delas até

defronte da cidade, com que a gente dela e do seu limite teve que

comer mais de dois anos.

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