Segunda parte - Capítulo CXL
Que trata da qualidade das ostras que há na Bahia. As mais formosas ostras que se viram são as do Brasil; e há infinidade delas, como se vê na Bahia, onde lhes os índios chamam
leriuçu, as quais estão sempre cheias, e têm ordinariamente grandes miolos; e em algumas partes os têm tamanhos que se não podem comer senão cortadas em talhadas, as quais, cruas, assadas e
fritas, são muito gostosas; as boas se dão dentro da vasa no salgado,
e pelos rios onde se junta a água doce ao salgado se criam muitas
na vasa, e muito grandes, mas quando há água do monte, estão
mui doces e sensabores. E há tantas ostras na Bahia e em outras
partes, que se carregam barcos delas, muito grandes, para fazerem
cal das cascas, de que se faz muita e muito boa para as obras, a qual
é muito alva; e há engenho em cujas obras se gastou mais de três
mil moios de cal destas ostras; as quais são muito mais sadias que
as da Espanha.
Nos mangues se criam outras ostras pequenas, a que os índios
chamam leri-mirim, e criam-se nas raízes e ramos deles até onde
lhes chega a maré de preamar; as quais raízes e ramos estão cobertos destas ostras, que se não enxerga o pau, e estão umas sobre outras; as quais são pequenas, mas muito gostosas; e nunca acabam,
porque tiradas umas, logo lhes nascem outras; e em todo o tempo
são muito boas e muito leves.
Há outras ostras, a que os índios chamam leripebas, que se
criam em baixos de areia de pouca água, as quais são como as salmoninas que se criam no Rio de Lisboa, defronte do Barreiro, da
feição de vieiras. Estas leripebas são um marisco de muito gosto, e
estão na conjunção da lua nova muito cheias, cujo miolo é sobre o
teso e muito excelente; nas quais se acham grãos de aljôfar pequenos, e criam-se logo serras destas leripebas umas sobre as outras,
muito grandes; e já aconteceu descer com a maré serra delas até
defronte da cidade, com que a gente dela e do seu limite teve que
comer mais de dois anos.