Segunda parte - Capítulo LXXXIV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 159 de 271
Obra Menu

Segunda parte - Capítulo LXXXIV

Em que se conta a natureza de algumas aves de água salgada.

Na Bahia, ao longo da água salgada, nas ilhas que ela tem, se

criam garcetas pequenas, a que os índios chamam carabuçu; algumas são brancas e, outras, pardas, as quais são umas plumas

cinzentas pequenas, muito fidalgas para gorro; todas criam ao

longo do mar, onde tomam peixe, de que se mantêm, e caranguejos novos; e esperam bem a espingarda.

Há outros pássaros, a que os índios chamam uirateonteon, que

se criam perto do salgado, que são pardos e têm o pescoço branco,

o bico verde, e são tamanhos como adens, e têm os pés da sua feição. Esses pássaros andam no mar, perto da terra, e voam ao longo

da água tanto, sem descansar, até que caem como mortos; e assim

descansam até que se tornam a levantar, e voam.

Carapirá é uma ave, a que os mareantes chamam rabifurcado, os quais se vão cinquenta e sessenta léguas ao mar, de onde

se recolhem para a Bahia, diante de algum navio do reino, ou do

vento sul, que lhes vem nas costas ventando, de onde tornam logo

a fazer volta ao mar; mas criam em terra, ao longo dele.

Jaburu é outra ave, tamanha como um grou; tem a cor cinzenta,

as pernas compridas, o bico delgado e mais que de palmo de comprido; estas aves criam em terra ao longo do salgado, e comem o

peixe que tomam no mar, perto da terra, por onde andam.

Ao longo do salgado, se criam uns pássaros, a que os índios

chamam urateon; são pardos, tamanhos como frangões, têm as

pernas vermelhas, o bico preto e comprido; são mui ligeiros e andam sempre sobre a água salgada, saltando em pulos, espreitando

os peixinhos de que se mantêm.

Ao longo do mar, se criam outros pássaros, a que os índios

chamam ati; têm o corpo branco, as asas pretas, o bico de peralto,

com que cortam o peixe como com tesoura; têm as pernas curtas

e brancas; andam sempre nas barras do rio buscando peixe, do que

comem.

Matuimaçu são uns pássaros que andam sempre sobre os mangues, tamanhos como franganitos, de cor pardaça; têm as penas e

bico preto, e mantêm-se de peixe que tomam.

Matuim-mirim são outros pássaros de feição dos de cima, mas

menores e brancacentos; mantêm-se do peixe que tomam; e uns e

outros criam no chão, ao longo do salgado.

Pitaoão são passarinhos do tamanho e cor dos canários, e têm

uma coroa branca na cabeça; fazem grandes ninhos nos mangues,

ao longo dos rios salgados, onde põem dois ovos; e mantém-se dos

peixinhos que alcançam por sua lança.

Há umas aves como garcetas, a que os índios chamam socoí,

que têm as pernas compridas e amarelas, o pescoço longo, o peito

pintado de branco e pardo, e todo o mais pardo; criam em terra no

chão, perto da água salgada, onde se mantêm do peixe que nela

tomam, e de caranguejos dos mangues.

Margui é um pássaro pequeno e pardo, tem as pernas mui

compridas, o bico e pescoço longo; e está sempre olhando para o

chão, e quando vê gente foge, dando um grande grito. Estas aves

se criam ao longo do salgado, e mantêm-se do peixe que tomam

no mar.

1/1
Menu

Fazer anotação