Segunda parte - Capítulo CXVII
Que trata das lucernas, e de outro bicho estranho.
Na Bahia se criam uns bichos, a que os índios chamam mamoás, aos quais chamam em Portugal lucernas, e outros caga -
-lume, que andam em noites escuras, assim em Portugal como na
Bahia, em cujos matos os há muito grandes; os quais entram de
noite nas casas às escuras, onde parecem candeias muito claras,
porque alumiam uma casa toda, em tanto que às vezes uma pessoa de súbito vendo a casa clara, deitando-se às escuras, de que
se espanta, cuidando ser outra coisa; dos quais bichos há muita
quantidade em lugares malpovoados.
Também se criam outros bichos na Bahia mui estranhos, a que
os índios chamam buijeja, que são do tamanho de uma lagarta de
couve, o qual é muito resplandecente, em tanto que, estando de
noite em qualquer casa, ou lugar fora dela, parece uma candeia
acesa, e quando anda é ainda mais resplandecente. Tem este bicho
uma natureza tão estranha que parece encantamento, e tomando-
-o na mão parece um rubi, mui resplandecente, e se o fazem em
pedaços, se torna logo a juntar e andar como dantes; e sobre acinte
se viu por vezes em diferentes partes cortar-se um destes bichos
com uma faca em muitos pedaços, e se tornarem logo a juntar; e
depois o embrulharam num papel durante oito dias, e cada dia o
espedaçavam em migalhas, e tornava-se logo a juntar e reviver,
até que enfadava, e o largavam.