Primeira parte - Capítulo XXIII
Que trata do Rio Real e seus merecimentos.
Parece que quem tem tamanho nome como o Rio Real, que deve
de ter merecimentos capazes dele, os quais convém que venham
a terreiro, para que cheguem à notícia de todos. E comecemos na
altura, em que está, que são doze graus escassos; a barra deste rio
terá de ponta a ponta meia légua, na qual tem dois canais, por
onde entram navios da costa de quarenta toneladas, e pela barra
do sudoeste podem entrar navios de sessenta tonéis, estando com
as balizas necessárias, porque tem dois mares em flor; da barra
para dentro tem o rio muito fundo, onde se faz uma baía de mais
de uma légua, onde os navios têm grande abrigada com todos os
tempos, na qual há grandes pescarias de peixe-boi, e de toda a outra sorte de pescado, e tem muito marisco. Entra a maré por este
rio acima seis ou sete léguas, e divide-se em três ou quatro esteiros
onde se vêm meter outras ribeiras de água doce. Até onde chega o
salgado, é a terra fraca e pouca dela servirá de mais que de criação
de gado; mas donde se acaba a maré para cima é a terra muito boa
e capaz para dar todas as novidades do que lhe plantarem, na qual
se podem fazer engenhos de açúcar, por se darem nela as canas
muito bem.
Pelo sertão deste rio há muito pau-brasil, que com pouco
trabalho todo pode vir ao mar, para se poder carregar para estes
reinos. E para que esta costa esteja segura do gentio, e os franceses
desenganados de não poderem vir resgatar com ele entre a Bahia
e Pernambuco, convém ao serviço de Sua Majestade que mande
povoar e fortificar este rio, o que se pode fazer com pouca despesa de sua Fazenda, do que já El-Rei D. Sebastião, que está em
glória, foi informado, e mandou muito afincadamente a Luís de
Brito, que neste tempo governava este Estado, que ordenasse com
muita brevidade como se povoasse este rio, no que ele meteu todo
o cabedal, mandando a isso Garcia d’ Ávila, que é um dos principais moradores da Bahia, com muitos homens das ilhas e da terra,
para que assentassem uma povoação onde parecesse melhor; o
que fez pelo rio acima três léguas, onde o mesmo governador foi
em pessoa com a força da gente que havia na Bahia, quando foi
dar guerra ao gentio daquela pane, o qual passou por esta nova
povoação, de cujo sítio ele e toda a companhia se descontentaram, e com razão, porque estava longe do mar, para se valerem
da fartura dele, e longe da terra boa, que lhe pudesse responder
com as novidades costumadas. Donde se afastarem por temerem
o gentio que por ali vivia, ao qual Luís de Brito deu tal castigo,
naquele tempo, como se não deu naquelas partes, porque mandou destruir os mais valorosos e maiores dos corsários capitães
daquele gentio, que nunca houve naquela costa, sem lhe custar
a vida a mais que a dois escravos, os quais principais do gentio
foram mortos, e os seus que escaparam com vida ficaram cativos.
E quando o governador recolheu, se despovoou este princípio de
povoação, sem se tornar mais a bulir nisto, por se entender ser
necessário fazer-se uma casa forte à custa de Sua Majestade, a qual
Luís de Brito não ordenou por ser chegado o cabo de seu tempo, e
suceder-lhe Lourenço da Veiga, que não buliu neste negócio pelos
respeitos, que não são sabidos, para se aqui declararem.