Segunda parte - Capítulo LXIII
Em que se declara a virtude de outras ervas menores.
Há outras ervas menores, pelos campos, de muita virtude, de
que se aproveitam os índios e os portugueses, das quais faremos
menção brevemente neste capítulo, começando na que o gentio
chama tararucu, e os portugueses fedegoso. Esta erva faz árvore
do tamanho das mostardeiras, e tem as folhas em ramos, arrumadas como folhas de árvores, as quais são muito macias, da feição
das folhas de pessegueiro, mas têm o verde muito escuro, e o
cheiro da fortidão da arruda; estas folhas deitam muito sumo, se
as pisam; o qual de natureza é muito frio, e serve para desafogar
chagas; com este fumo curam o sesso dos índios e das galinhas,
porque criam nele muitas vezes bichos de que morrem, se lhe não
acodem com tempo estas ervas dão umas flores amarelas como
as da páscoa, das quais lhes nascem umas bainhas com semente
como ervilhacas.
Pelos campos da Bahia se dão algumas ervas que lançam grandes braços como meloeiros, que atrepam se acham por onde, as
quais dão umas flores brancas que se parecem até no cheiro com a
flor de legação em Portugal; cujos olhos comem os índios doentes
de boubas, e outras pessoas; e dizem acharem-se bem com eles, e
afirma-se que esta é a salsaparrilha das Antilhas.
Capeba é uma erva que nasce em boa terra perto da água, e
faz árvore como couve espigada; mas tem a folha redonda, muito
grande, com pé comprido, a qual é muito macia; a árvore faz um
grelo oco por dentro, e muito tenro e, depois de bem espigada, lança umas candeias crespas em que dá a semente, de que nasce. Esta
erva é de natureza frigidíssima, com cujas folhas passadas pelo ar
do fogo se desafoga toda a chaga e inchação que está esquentada,
pondo-lhe estas folhas em cima; e se a fogagem é grande, seca-se
esta folha; de maneira que fica áspera, e quando está seca se lhe
põem outras até que o fogo abrande.
Criam-se outras ervas pelos campos da Bahia, que se chama
guaxima, da feição de tanchagem; mas tem as tolhas menores, da
feição de escudete, e tem o pé comprido, as quais são brancas da
banda de baixo, cuja natureza é fria; e posta sobre chagas e coçaduras das pernas que têm fogagem, as desafoga, e encouram com
elas, sem outros unguentos.
Pelos mesmos campos se criam outras ervas, a que o gentio
chama caapiá, e os portugueses malvaísco, porque não tem outra
diferença do de Portugal que ser muito viçoso, mas tem a mesma
virtude; da qual usam os médicos da Bahia, quando é necessário,
para fazerem vir a furo as postemas e inchações.
Peipeçaba é uma erva que se parece com belverde, que se dá
nos jardins de Portugal, da qual fazem as vassouras na Bahia, com
que varrem as casas; cuja natureza é fria, a qual pisam os índios
e curam com elas feridas frescas; e também entre os portugueses
se cura com o sumo desta erva o mal do sesso, para o que tem
grande virtude; a qual não dá flor, mas semente muito miúda, de
que nasce.
Por estes campos se cria outra erva, a que os índios chamam
campuava, que são mentrastos, nem mais nem menos que os da
Espanha, e têm a mesma virtude, cuja água cozida é boa para lavar
os pés; e são tantos que juncam com eles as igrejas pelas endoenças, em lugar de rosmaninhos.
Nas campinas da Bahia se cria outra erva, a que o gentio chama
caancuã, que tem as folhas de três em três em três juntas, e são
da cor da salva; dá a flor roxa, de que nasce uma bainha como de
tremoços, que tem dentro umas sementes como lentilhas grandes, a qual erva tem o cheiro muito fortum, que causa dor de cabeça a quem a colhe; o gado que come esta erva engorda muito
no primeiro ano com ela, e depois dá-lhe como câmaras, de que
morre; pelo qual respeito houve quem quis desinçar esta erva de
sua fazenda, e pôs um dia mais de duzentos escravos a arrancá-la
do campo, os quais não puderam aturar o trabalho mais que até
o meio-dia, porque todos adoeceram com o cheiro dela da dor de
cabeça, o que fez espanto; e os homens que têm conhecimento da
erva-besteira da Espanha, e a viram nesta terra, afirmam que é esta
mesma erva a besteira.