Segunda parte - Capítulo LXXX
Em que se declara a natureza dos canindés, araras e tucanos.
Canindé é um pássaro tamanho como um grande galo; tem as
penas das pernas, barriga e colo amarelas, de cor muito fina, e as
costas acatassoladas de azul e verde, e as das asas e rabo azuis, o
qual tem muito comprido, e a cabeça por cima azul, e ao redor
do bico, amarelo; tem o bico preto, grande e grosso; e as penas do
rabo e as das asas são vermelhas, pela banda de baixo. Criam em
árvores altas, onde os índios os tomam novos nos ninhos, para se
criarem nas casas, porque falam e gritam muito, com voz alta e
grossa; os quais mordem mui valentemente, e comem frutas das
árvores, e em casa tudo quanto lhes dão; cuja carne é dura, mas
aproveitam-se dela os que andam pelo mato. Os índios se aproveitam das suas penas amarelas para as suas carapuças, e as do rabo,
que são de três e quatro palmos, para as embagaduras das suas
espadas.
Arara é outro pássaro do mesmo tamanho, e feição do canindé,
mas tem as penas do colo, pernas e barriga vermelhas, e as das
costas, das asas, e do rabo azuis, e algumas verdes, e a cabeça e
pescoço vermelho, e o bico branco e muito grande, e tão duro que
quebram com ele uma cadeia de ferro, os quais mordem muito e
gritam mais. Criam estas aves em árvores altas, comem frutas do
mato e milho pelas roças, e a mandioca quando está a curtir. Os
índios tomam estes pássaros quando são novos nos ninhos, para
os criarem; os quais, depois de grandes, cortam com o bico por
qualquer pau, como se fosse uma enxó. A sua carne é como a dos
canindés, de cujas penas se aproveitam os índios.
Tucanos são outras aves do tamanho de um corvo; têm as pernas curtas e pretas, as penas das costas azuladas, a das asas e do
rabo anilada, o peito cheio de frouxel muito miúdo de finíssimo
amarelo, o qual os índios esfolam para forro de carapuças. Têm a
cabeça pequena, o bico branco e amarelo, muito grosso, e alguns
são tão compridos como um palmo, e tão pesados que não podem
com ele quando comem, porque tomam grande bocado, com o
que viram o bico para cima, porque não pode o pescoço com tamanho peso, como têm. Criam estes pássaros em árvores altas, e
tomam-nos novos para se criarem em casa; os bravos matam os
índios a flecha, para lhes esfolarem o peito, cuja carne é muito
dura e magra.