Segunda parte - Capítulo LXXX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 155 de 271
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Segunda parte - Capítulo LXXX

Em que se declara a natureza dos canindés, araras e tucanos.

Canindé é um pássaro tamanho como um grande galo; tem as

penas das pernas, barriga e colo amarelas, de cor muito fina, e as

costas acatassoladas de azul e verde, e as das asas e rabo azuis, o

qual tem muito comprido, e a cabeça por cima azul, e ao redor

do bico, amarelo; tem o bico preto, grande e grosso; e as penas do

rabo e as das asas são vermelhas, pela banda de baixo. Criam em

árvores altas, onde os índios os tomam novos nos ninhos, para se

criarem nas casas, porque falam e gritam muito, com voz alta e

grossa; os quais mordem mui valentemente, e comem frutas das

árvores, e em casa tudo quanto lhes dão; cuja carne é dura, mas

aproveitam-se dela os que andam pelo mato. Os índios se aproveitam das suas penas amarelas para as suas carapuças, e as do rabo,

que são de três e quatro palmos, para as embagaduras das suas

espadas.

Arara é outro pássaro do mesmo tamanho, e feição do canindé,

mas tem as penas do colo, pernas e barriga vermelhas, e as das

costas, das asas, e do rabo azuis, e algumas verdes, e a cabeça e

pescoço vermelho, e o bico branco e muito grande, e tão duro que

quebram com ele uma cadeia de ferro, os quais mordem muito e

gritam mais. Criam estas aves em árvores altas, comem frutas do

mato e milho pelas roças, e a mandioca quando está a curtir. Os

índios tomam estes pássaros quando são novos nos ninhos, para

os criarem; os quais, depois de grandes, cortam com o bico por

qualquer pau, como se fosse uma enxó. A sua carne é como a dos

canindés, de cujas penas se aproveitam os índios.

Tucanos são outras aves do tamanho de um corvo; têm as pernas curtas e pretas, as penas das costas azuladas, a das asas e do

rabo anilada, o peito cheio de frouxel muito miúdo de finíssimo

amarelo, o qual os índios esfolam para forro de carapuças. Têm a

cabeça pequena, o bico branco e amarelo, muito grosso, e alguns

são tão compridos como um palmo, e tão pesados que não podem

com ele quando comem, porque tomam grande bocado, com o

que viram o bico para cima, porque não pode o pescoço com tamanho peso, como têm. Criam estes pássaros em árvores altas, e

tomam-nos novos para se criarem em casa; os bravos matam os

índios a flecha, para lhes esfolarem o peito, cuja carne é muito

dura e magra.

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