Segunda parte - Capítulo CXXVII
Que trata dos homens marinhos.
Não há dúvida senão que se encontram na Bahia e nos recôncavos dela muitos homens marinhos, a que os índios chamam pela
sua língua upupiara, os quais andam pelo rio de água doce pelo
tempo do verão, onde fazem muito dano aos índios pescadores e
mariscadores que andam em jangada, onde os tomam, e aos que
andam pela borda da água, metidos nela; a uns e outros apanham,
e metem-nos debaixo da água, onde os afogam; os quais saem à
terra com a maré vazia afogados e mordidos na boca, narizes e
na sua natura; e dizem outros índios pescadores que viram tomar
estes mortos que viram sobre água uma cabeça de homem lançar
um braço fora dela e levar o morto; e os que isso viram se recolheram fugindo à terra assombrados, do que ficaram tão atemorizados que não quiseram tornar a pescar daí a muitos dias; o que
também aconteceu a alguns negros de Guiné; os quais fantasmas
ou homens marinhos mataram por vezes cinco índios meus; e
já aconteceu tomar um monstro destes dois índios pescadores
de uma jangada e levarem um, e salvar-se outro tão assombrado
que esteve para morrer; e alguns morrem disto. E um mestre de
açúcar do meu engenho afirmou que olhando da janela do engenho que está sobre o rio, e que gritavam umas negras, uma noite,
que estavam lavando umas formas de açúcar, viu um vulto maior
que um homem à borda da água, mas que se lançou logo nela;
ao qual mestre de açúcar as negras disseram que aquele fantasma
vinha para pegar nelas, e que aquele era o homem marinho, as
quais estiveram assombradas muitos dias; e destes acontecimentos acontecem muitos no verão, que no inverno não falta nunca
nenhum negro.