Segunda parte - Capítulo CXLI
Que trata de outros mariscos que há na Bahia.
Na Bahia se criam outras sortes de marisco miúdo debaixo da
areia. Primeiramente, sernambis; é marisco que se cria na vasa,
que são como as amêijoas grandes de Lisboa; mas têm a casca
muito redonda e grossa, e têm dentro grande miolo de cor pardaça, que se come assado e cozido, mas o melhor deste marisco
é frito, porque se lhe gasta do fogo a muita reima que tem, e um
cheiro fortum que assado e cozido tem; e de toda a maneira este
marisco é prezado.
Nos baixos de areia que tem a Bahia se cria outro marisco, a
que os índios chamam tarcobas, que são da feição e tamanho das
amêijoas de Lisboa, e têm o mesmo gosto e sabor, assim cruas
como abertas no fogo; as quais se tiram de debaixo da areia, e têm-
-se em casa na água salgada vivas, quinze e vinte dias, as quais,
além de serem maravilhosas no sabor, são muito leves.
Cria-se na vasa da Bahia infinidade de mexilhões, a que os
índios chamam sururus, que são da mesma feição e tamanho e
sabor dos mexilhões de Lisboa, os quais têm caranguejinhos dentro, e o mais que têm os de Lisboa; e com a minguante da lua estão
muito cheios.
Dos berbigões há grande multidão na Bahia, nas praias da
areia, a que os índios chamam sarnambitinga, que são da mesma
feição dos de Lisboa, mas têm a casca mais grossa, e são menores;
comem-se abertos no fogo, e são mui gostosos, e também crus;
mas têm um certo sabor, que requeima algum tanto na língua.
Nas enseadas da Bahia, na vasa delas, se cria outro marisco, a
que os índios chamam guaripoapém, a que os portugueses dizem
linguirões, os quais são tão compridos como um dedo e mais, da
mesma grossura, e têm um miolo grande e mui gostoso, que se
come aberto no fogo; e a casca se abre como a das amêijoas.