Segunda parte - Capítulo CI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 176 de 271
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Segunda parte - Capítulo CI

Dos porcos e outros bichos que se criam na água doce.

Nos rios de água doce e nas lagoas também se criam muitos

porcos, a que os índios chamam capivaras, que não são tamanhos

como os porcos-do-mato; os quais têm pouco cabelo e a cor cinzenta, e o rabo como os outros; e não têm na boca mais que dois

dentes grandes, ambos debaixo, na dianteira, que são do comprimento e grossura de um dedo; e cada um é fendido pelo meio e

fica de duas peças; e têm mais outros dois queixais, todos no queixo de baixo, que no de cima não têm nada; os quais parem e criam

os filhos debaixo da água, onde tomam peixinhos e camarões que

comem; também comem erva ao longo da água, de onde saem em

terra, e fazem muito dano nos canaviais de açúcar e roças que estão perto da água, onde matam em armadilhas; cuja carne é mole,

e o toucinho pegajoso; mas salpresa é boa de toda a maneira, mas

carregada para quem não tem saúde.

Criam-se nos rios de água doce outros bichos, que se parecem

com lontras de Portugal, a que o gentio chama jaguarapeba, que

têm o cabelo preto e tão macio como veludo. São do tamanho de

um gozo, têm a cabeça como de gato, e a boca muito rasgada e vermelha por dentro, e nos dentes grandes presas, as pernas curtas.

Andam sempre na água, onde criam e parem muitos filhos e onde

se mantêm dos peixes que tomam e dos camarões; não saem nunca fora da água, onde gritam quando veem gente ou outro bicho.

Irara é outro bicho da água doce, tamanho como um grande

rafeiro, de cor parda, e outros pretos. Têm a feição de cão, e ladram

como cão, e remetem à gente com muita braveza; as fêmeas parem muitos filhos juntos; e se os tomam novos, criam-se em casa,

onde se fazem domésticos. Mantêm-se do peixe e dos camarões

que tomam na água; cuja carne comem os índios.

Nos mesmos rios se criam outros bichos, a que os índios chamam vivia, que são do tamanho dos gozos, felpudos do cabelo, e

de cor cinzenta; têm o focinho comprido e agudo, as orelhas pequeninas e redondas, do tamanho de uma casca de tremoço; têm

o rabo muito comprido e grosso pela arreigada, como carneiro;

quando gritam no rio, nomeiam-se pelo seu nome; têm as mãos

e unhas de cão, andam sempre na água, onde as fêmeas parem

muitos filhos; mantêm-se do peixe e camarões que tomam, cuja

carne comem os índios.

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