Segunda parte - Capítulo CI
Dos porcos e outros bichos que se criam na água doce.
Nos rios de água doce e nas lagoas também se criam muitos
porcos, a que os índios chamam capivaras, que não são tamanhos
como os porcos-do-mato; os quais têm pouco cabelo e a cor cinzenta, e o rabo como os outros; e não têm na boca mais que dois
dentes grandes, ambos debaixo, na dianteira, que são do comprimento e grossura de um dedo; e cada um é fendido pelo meio e
fica de duas peças; e têm mais outros dois queixais, todos no queixo de baixo, que no de cima não têm nada; os quais parem e criam
os filhos debaixo da água, onde tomam peixinhos e camarões que
comem; também comem erva ao longo da água, de onde saem em
terra, e fazem muito dano nos canaviais de açúcar e roças que estão perto da água, onde matam em armadilhas; cuja carne é mole,
e o toucinho pegajoso; mas salpresa é boa de toda a maneira, mas
carregada para quem não tem saúde.
Criam-se nos rios de água doce outros bichos, que se parecem
com lontras de Portugal, a que o gentio chama jaguarapeba, que
têm o cabelo preto e tão macio como veludo. São do tamanho de
um gozo, têm a cabeça como de gato, e a boca muito rasgada e vermelha por dentro, e nos dentes grandes presas, as pernas curtas.
Andam sempre na água, onde criam e parem muitos filhos e onde
se mantêm dos peixes que tomam e dos camarões; não saem nunca fora da água, onde gritam quando veem gente ou outro bicho.
Irara é outro bicho da água doce, tamanho como um grande
rafeiro, de cor parda, e outros pretos. Têm a feição de cão, e ladram
como cão, e remetem à gente com muita braveza; as fêmeas parem muitos filhos juntos; e se os tomam novos, criam-se em casa,
onde se fazem domésticos. Mantêm-se do peixe e dos camarões
que tomam na água; cuja carne comem os índios.
Nos mesmos rios se criam outros bichos, a que os índios chamam vivia, que são do tamanho dos gozos, felpudos do cabelo, e
de cor cinzenta; têm o focinho comprido e agudo, as orelhas pequeninas e redondas, do tamanho de uma casca de tremoço; têm
o rabo muito comprido e grosso pela arreigada, como carneiro;
quando gritam no rio, nomeiam-se pelo seu nome; têm as mãos
e unhas de cão, andam sempre na água, onde as fêmeas parem
muitos filhos; mantêm-se do peixe e camarões que tomam, cuja
carne comem os índios.