Primeira parte - Capítulo XXXVIII
Em que se declara a terra que há do Rio das Caravelas até Cricaré.
Do Rio das Caravelas até o Rio de Peruípe são três léguas, as
quais se navegam pelo canal indo correndo a costa. Neste rio
entram caravelões da costa, junto da qual a terra faz uma ponta
grossa ao mar de grande arvoredo, e toda a mais terra é baixa. Do
direito desta ponta se começam os abrolhos e seus baixos; mas
entre os baixos e a terra há fundo de seis e sete braças, uma légua
ao mar somente, por onde vai o canal.
Deste Rio Peruípe ao de Mocuripe são cinco léguas, o qual tem
na boca uma barreira branca como lençol, por onde é bom de conhecer, o qual está dezoito graus e meio. Por este Rio Mocuripe
entram caravelões da costa à vontade, e há maré por ele acima
com muito grande espaço, cuja terra é boa e para se fazer conta
dela para se povoar, porque há nela grandes pescarias, muito marisco e caça.
Deste Rio de Mocuripe ao de Cricaré são dez léguas, e corre-se a
costa do Rio das Caravelas até Cricaré norte-sul, e toma da quarta
nordeste-sudoeste, o qual Rio Mocuripe está em dezoito graus e
três quartos, pelo qual entram navios de honesto porto, e é muito
capaz para se poder povoar, por a terra ser muito boa e de muita
caça, e o rio de muito pescado e marisco, onde se podem fazer engenhos de açúcar, por se meterem nele muitas ribeiras de água,
boas para eles. Este rio vem de muito longe, e navega-se quatro
ou cinco léguas por ele acima; o qual tem na barra, da banda do
sul quatro abertas, uma légua e mais uma da outra, as quais estão
na terra firme por cima da costa, que é baixa e sem arvoredo, e de
campinas. E quem vem do mar em fora parecem-lhe estas abertas
bocas de rios, por onde a terra é boa de conhecer. Até aqui senhorearam a costa os tupiniquins, de quem é bem que digamos neste
capítulo que se segue antes que cheguemos à terra dos goitacases.