Segunda parte - Capítulo XLIII
Em que se declara a qualidade dos aipins.
Dá-se nesta terra outra casta de mandioca, a que o gentio chama aipins, cujas raízes são da feição da mesma mandioca, a rama
e a folha são da mesma maneira, sem haver nenhuma diferença,
e planta-se de mistura com a mesma mandioca, e para se recolherem estas raízes as conhecem os índios pela cor dos ramos, no que
atinam poucos portugueses. E estas raízes dos aipins são alvíssimas; quando estão cruas sabem às castanhas cruas da Espanha;
assadas são muito doces, e têm o mesmo sabor das castanhas
assadas, e, além disso, as quais se comem também cozidas, e são
muito saborosas; e de uma maneira e de outra são ventosas como
as castanhas. Destes aipins se aproveitam nas povoações novas
porque como são de cinco meses se começam a comer assados, e
como passam de seis meses fazem-se duros, e não se assam bem;
mas servem então para beijus e para farinha fresca, que é mais
doce que a da mandioca, as quais raízes duram pouco debaixo da
terra, e como passam de oito meses apodrecem muito.
Destes aipins há sete ou oito castas; mas os que mais se estimam, por serem mais saborosos, são uns que chamam jerimus.
Os índios se valem dos aipins para nas suas festas fazerem deles
cozidos seus vinhos, para o que os plantam mais que para os comerem assados, como fazem os portugueses.
E porque tudo é mandioca, concluamos que o mantimento
dela é o melhor que se sabe, tirado o do bom trigo, porque pão de
trigo do mar, de milho, de centeio, de cevada, não presta a par da
mandioca, arroz, inhames e cocos.
Milho de Guiné se dá na Bahia, como ao diante se verá; mas
não se tem lá por mantimento, e ainda digo que a mandioca é
mais sadia e proveitosa que o bom trigo, por ser de melhor digestão. E por se averiguar por tal, os governadores Tomé de Sousa, D.
Duarte e Mem de Sá não comiam no Brasil pão de trigo, por se não
acharem bem como ele, e assim o fazem outras muitas pessoas.