Segunda parte - Capítulo CXXXVI
Que trata da natureza de alguns peixes que se criam na lama e andam sempre no fundo.
Urumaçá é uma casta de peixe da feição de linguados de
Portugal, o qual se toma debaixo da vasa, ou com redes, cujo sabor
não é muito bom; e se cozem ou assam, sem o açoitarem, faz-se
em pedaços.
Nos arrecifes se toma muito polvo, e são como os da Espanha,
sem nenhuma diferença, a que os índios chamam caiacanga, os
quais não andam nunca em cima da água; e tornam-se na baixa -
-mar de maré de águas vivas, nas concavidades que têm os arrecifes, onde ficam com pouca água; e de noite se tomam melhor com
fachos de fogo.
Aimoré é um peixe que se cria na vasa dos rios da água salgada, onde se tomam nas covas da vasa, os quais são da feição e cor
dos enxarrocos; e tão escorregadios como eles, e têm a cabeça da
mesma maneira; são sobre o mole, mas muito gostosos cozidos e
fritos, e muito leves; as suas ovas são pequenas e gostosas, mas são
tão peçonhentas que de improviso fazem mal a quem as come, e
fazem arvoar a cabeça, de dor de estômago, e vomitar, e grande
fraqueza, mas passa este mal logo.
Chama o gentio aimoreuçus a outros peixes, que se criam na
vasa dos mesmos rios do salgado, que são da feição dos eirós de
Lisboa, mas mais curtos e assim escorregadios. Estes, quando estão ovados, têm as ovas tão compridas, que quase lhes chegam à
ponta do rabo, e são muito saborosas, e o mesmo peixe; mas as
ovas são peçonhentas, e de improviso se acha mal quem as come,
como as dos aimorés; mas o peixe é muito gostoso e sadio.
Baiacu é um peixe que quer dizer “sapo”, da mesma cor e feição, e muito peçonhento, mormente a pele, os fígados e o fel, ao
qual os índios com fome esfolam, e tiram-lhe o peçonhento fora,
e comem-nos; mas se lhes derrama o fel, ou lhes fica alguma pele,
incha quem o come até rebentar; com os quais peixes assados os
índios matam os ratos, os quais andam sempre no fundo da água.
Piraquioá é um peixe de feição de um ouriço-cacheiro, todo
cheio de espinhos tamanhos como alfinetes grandes, os quais
têm pegados na pele por duas pontas com que estão arreigados;
tomam-se em redes; os quais andam sempre ao longo da areia no
fundo; a quem os índios esfolam, e comem-lhes a carne.
Bacupuá é um peixe da feição do enxarroco nos ombros e na
cabeça, mas tem a boca muito pequena e redonda; e é dos ombros
para baixo muito estreito, delgado e duro como nervo, e as barbatanas do rabo são duras e grossas, e na despedida do rabo tem duas
pernas como rãs, e no fim dele duas barbatanas duras como as do
rabo; e debaixo, na barriga, tem dois bracinhos curtos, e neles
maneira de dedos; e tem as costas cheias de sarna como ostrinha,
e da cabeça lhe sai um corno de comprimento de um dedo, mas
delgado e duro como osso e muito preto, e o mais é cor vermelhaça; e tem na barriga debaixo das mãos dois buracos. Este peixe não
nada, mas anda sempre pela areia sobre as mãos, onde há pouca
água; ao qual os índios comem esfolado, quando não têm outra
coisa.