Segunda parte - Capítulo CXXXVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 211 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXXXVI

Que trata da natureza de alguns peixes que se criam na lama e andam sempre no fundo.

Urumaçá é uma casta de peixe da feição de linguados de

Portugal, o qual se toma debaixo da vasa, ou com redes, cujo sabor

não é muito bom; e se cozem ou assam, sem o açoitarem, faz-se

em pedaços.

Nos arrecifes se toma muito polvo, e são como os da Espanha,

sem nenhuma diferença, a que os índios chamam caiacanga, os

quais não andam nunca em cima da água; e tornam-se na baixa -

-mar de maré de águas vivas, nas concavidades que têm os arrecifes, onde ficam com pouca água; e de noite se tomam melhor com

fachos de fogo.

Aimoré é um peixe que se cria na vasa dos rios da água salgada, onde se tomam nas covas da vasa, os quais são da feição e cor

dos enxarrocos; e tão escorregadios como eles, e têm a cabeça da

mesma maneira; são sobre o mole, mas muito gostosos cozidos e

fritos, e muito leves; as suas ovas são pequenas e gostosas, mas são

tão peçonhentas que de improviso fazem mal a quem as come, e

fazem arvoar a cabeça, de dor de estômago, e vomitar, e grande

fraqueza, mas passa este mal logo.

Chama o gentio aimoreuçus a outros peixes, que se criam na

vasa dos mesmos rios do salgado, que são da feição dos eirós de

Lisboa, mas mais curtos e assim escorregadios. Estes, quando estão ovados, têm as ovas tão compridas, que quase lhes chegam à

ponta do rabo, e são muito saborosas, e o mesmo peixe; mas as

ovas são peçonhentas, e de improviso se acha mal quem as come,

como as dos aimorés; mas o peixe é muito gostoso e sadio.

Baiacu é um peixe que quer dizer “sapo”, da mesma cor e feição, e muito peçonhento, mormente a pele, os fígados e o fel, ao

qual os índios com fome esfolam, e tiram-lhe o peçonhento fora,

e comem-nos; mas se lhes derrama o fel, ou lhes fica alguma pele,

incha quem o come até rebentar; com os quais peixes assados os

índios matam os ratos, os quais andam sempre no fundo da água.

Piraquioá é um peixe de feição de um ouriço-cacheiro, todo

cheio de espinhos tamanhos como alfinetes grandes, os quais

têm pegados na pele por duas pontas com que estão arreigados;

tomam-se em redes; os quais andam sempre ao longo da areia no

fundo; a quem os índios esfolam, e comem-lhes a carne.

Bacupuá é um peixe da feição do enxarroco nos ombros e na

cabeça, mas tem a boca muito pequena e redonda; e é dos ombros

para baixo muito estreito, delgado e duro como nervo, e as barbatanas do rabo são duras e grossas, e na despedida do rabo tem duas

pernas como rãs, e no fim dele duas barbatanas duras como as do

rabo; e debaixo, na barriga, tem dois bracinhos curtos, e neles

maneira de dedos; e tem as costas cheias de sarna como ostrinha,

e da cabeça lhe sai um corno de comprimento de um dedo, mas

delgado e duro como osso e muito preto, e o mais é cor vermelhaça; e tem na barriga debaixo das mãos dois buracos. Este peixe não

nada, mas anda sempre pela areia sobre as mãos, onde há pouca

água; ao qual os índios comem esfolado, quando não têm outra

coisa.

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