Segunda parte - Capítulo LVI
Em que se declaram as ervas que dão fruto na Bahia, que não são
árvores.
Como na Bahia se criam algumas frutas que se comem, em
ervas que não fazem árvores, pareceu decente arrumá-las neste
capítulo apartadas das outras árvores. E comecemos logo a dizer
dos maracujás, que é uma rama como hera e tem a folha da mesma feição, a qual atrepa pelas árvores e as cobre todas, do que se
fazem nos quintais ramadas muito frescas, porque duram sem se
secar, muitos anos. A folha da erva é muito fria e boa para desafogar, pondo-se em cima de qualquer nascida ou chaga e tem outras
muitas virtudes; e dá uma flor branca muito formosa e grande que
cheira muito bem, de onde nascem umas frutas como laranjas pequenas, muito lisas por fora; a casca é da grossura da das laranjas
de cor verde-clara, e tudo o que tem dentro se come, que além de
ter bom cheiro tem suave sabor. Esta fruta é fria de sua natureza
e boa para doentes de febres, tem ponta de azedo e é mui desenfastiada; e, enquanto é nova, faz-se dela boa conserva; e, enquanto
não é bem madura, é muito azeda.
Canapu é uma erva que se parece com erva-moura, e dá uma
fruta como bagos de uvas brancas coradas do sol e moles, a qual se
come, mas não tem sabor senão para os índios.
Modurucu é nem mais nem menos que uma figueira das que
se plantam nos jardins de Portugal, que tem as folhas grossas, a
que chamam figueiras-da-índia; estas têm as folhas de um palmo
de comprido e quatro dedos de largo e um de grosso, e nascem as
folhas nas pontas umas das outras, as quais são todas cheias de
espinhos tamanhos e tão duros como agulhas, e tão agudas como
elas, e dão fruto nas pontas e nas ilhargas das folhas, que são uns
figos tamanhos como os lâmparos, vermelhos por fora, com a casca grossa que se não come; o miolo é de malhas brancas e pretas;
o branco é alvíssimo, e o preto como azeviche, cujo sabor é mui
apetitoso e fresco; o que se cria nas areias ao longo do mar.
Marujaíba são uns ramos espinhosos; mas, limpos dos espinhos, ficam umas canas pretas que servem de bordões como canas de rota, cujos espinhos são pretos, e tão agudos como agulha.
Nos pés destes ramos se dão uns cachos como os das tamareiras,
feitos os fios em cordões cheios de bagos como os de uvas ferrais,
e do mesmo tamanho, os quais têm a casca dura e roxa por fora, e
o caroço dentro como cerejas, o qual com a casca se lhe lança fora;
e gosta-se de um sumo que tem dentro, doce e suave.
Ao longo do mar se criam umas folhas largas, que dão um fruto
a que chamam carauatá, que é da feição de maçaroca, e amarelo
por fora; tem bom cheiro, a casca grossa e tesa, a qual se lança fora
para se comer o miolo, que é mui doce, mas empola-se a boca a
quem come muita fruta desta.
Há uma erva que se chama nhambi, que se parece na folha com
coentro, e queima como mastruços, a qual os comem índios e os
mestiços crua, e temperam as panelas dos seus manjares com ela,
de quem é mui estimada.