Segunda parte - Capítulo LVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 131 de 271
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Segunda parte - Capítulo LVI

Em que se declaram as ervas que dão fruto na Bahia, que não são

árvores.

Como na Bahia se criam algumas frutas que se comem, em

ervas que não fazem árvores, pareceu decente arrumá-las neste

capítulo apartadas das outras árvores. E comecemos logo a dizer

dos maracujás, que é uma rama como hera e tem a folha da mesma feição, a qual atrepa pelas árvores e as cobre todas, do que se

fazem nos quintais ramadas muito frescas, porque duram sem se

secar, muitos anos. A folha da erva é muito fria e boa para desafogar, pondo-se em cima de qualquer nascida ou chaga e tem outras

muitas virtudes; e dá uma flor branca muito formosa e grande que

cheira muito bem, de onde nascem umas frutas como laranjas pequenas, muito lisas por fora; a casca é da grossura da das laranjas

de cor verde-clara, e tudo o que tem dentro se come, que além de

ter bom cheiro tem suave sabor. Esta fruta é fria de sua natureza

e boa para doentes de febres, tem ponta de azedo e é mui desenfastiada; e, enquanto é nova, faz-se dela boa conserva; e, enquanto

não é bem madura, é muito azeda.

Canapu é uma erva que se parece com erva-moura, e dá uma

fruta como bagos de uvas brancas coradas do sol e moles, a qual se

come, mas não tem sabor senão para os índios.

Modurucu é nem mais nem menos que uma figueira das que

se plantam nos jardins de Portugal, que tem as folhas grossas, a

que chamam figueiras-da-índia; estas têm as folhas de um palmo

de comprido e quatro dedos de largo e um de grosso, e nascem as

folhas nas pontas umas das outras, as quais são todas cheias de

espinhos tamanhos e tão duros como agulhas, e tão agudas como

elas, e dão fruto nas pontas e nas ilhargas das folhas, que são uns

figos tamanhos como os lâmparos, vermelhos por fora, com a casca grossa que se não come; o miolo é de malhas brancas e pretas;

o branco é alvíssimo, e o preto como azeviche, cujo sabor é mui

apetitoso e fresco; o que se cria nas areias ao longo do mar.

Marujaíba são uns ramos espinhosos; mas, limpos dos espinhos, ficam umas canas pretas que servem de bordões como canas de rota, cujos espinhos são pretos, e tão agudos como agulha.

Nos pés destes ramos se dão uns cachos como os das tamareiras,

feitos os fios em cordões cheios de bagos como os de uvas ferrais,

e do mesmo tamanho, os quais têm a casca dura e roxa por fora, e

o caroço dentro como cerejas, o qual com a casca se lhe lança fora;

e gosta-se de um sumo que tem dentro, doce e suave.

Ao longo do mar se criam umas folhas largas, que dão um fruto

a que chamam carauatá, que é da feição de maçaroca, e amarelo

por fora; tem bom cheiro, a casca grossa e tesa, a qual se lança fora

para se comer o miolo, que é mui doce, mas empola-se a boca a

quem come muita fruta desta.

Há uma erva que se chama nhambi, que se parece na folha com

coentro, e queima como mastruços, a qual os comem índios e os

mestiços crua, e temperam as panelas dos seus manjares com ela,

de quem é mui estimada.

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