Segunda parte - Capítulo CXXVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 201 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXXVI

Que trata do espadarte e de outro peixe não conhecido que deu à costa.

Entram na Bahia, no tempo das baleias, outros peixes muito

grandes, a que os índios chamam pirapicu, e os portugueses espadartes, os quais têm grandes brigas com as baleias, e fazem tamanho estrondo quando pelejam, levantando sobre a água tamanho

vulto e tanta dela para cima, que parece de longe um navio a vela;

o que se vê de três e quatro léguas de espaço, e com esta revolta,

em que andam, fazem grande espanto ao outro peixe miúdo; com

o que foge para os rios e recôncavos da Bahia.

Aconteceu na Bahia, no verão do ano de 1584, onde chamam

Tapoã, vir um grande vulto do mar fazendo grande marulho de

diante após o peixe miúdo que lhe vinha fugindo para a terra, até

dar em seco; e como vinha com muita força, varou em terra pela

praia, de onde se não pôde tornar ao mar por vazar a maré e lhe

faltar a água para nadar; ao que acudiram os vizinhos daquela comarca a desfazer este peixe, que se desfaz todo, em azeite, como

faz a baleia; o qual tinha trinta e sete palmos de comprido, e não

tinha escama, mas couro muito grosso e gordo como toucinho, de

cor verdoenga; o qual peixe era tão alto e grosso que tolhia a vista

do mar, a quem se punha detrás dele; cuja cabeça era grandíssima,

e tinha por natureza um só olho no meio da frontaria do rosto;

as espinhas e ossos eram verdoengos; ao qual peixe não soube

ninguém o nome, por não haver entre os índios nem portugueses

quem soubesse dizer que visse nem ouvisse que o mar lançasse

outro peixe como este fora, de que se admiraram muito.

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