Segunda parte - Capítulo CXXVI
Que trata do espadarte e de outro peixe não conhecido que deu à costa.
Entram na Bahia, no tempo das baleias, outros peixes muito
grandes, a que os índios chamam pirapicu, e os portugueses espadartes, os quais têm grandes brigas com as baleias, e fazem tamanho estrondo quando pelejam, levantando sobre a água tamanho
vulto e tanta dela para cima, que parece de longe um navio a vela;
o que se vê de três e quatro léguas de espaço, e com esta revolta,
em que andam, fazem grande espanto ao outro peixe miúdo; com
o que foge para os rios e recôncavos da Bahia.
Aconteceu na Bahia, no verão do ano de 1584, onde chamam
Tapoã, vir um grande vulto do mar fazendo grande marulho de
diante após o peixe miúdo que lhe vinha fugindo para a terra, até
dar em seco; e como vinha com muita força, varou em terra pela
praia, de onde se não pôde tornar ao mar por vazar a maré e lhe
faltar a água para nadar; ao que acudiram os vizinhos daquela comarca a desfazer este peixe, que se desfaz todo, em azeite, como
faz a baleia; o qual tinha trinta e sete palmos de comprido, e não
tinha escama, mas couro muito grosso e gordo como toucinho, de
cor verdoenga; o qual peixe era tão alto e grosso que tolhia a vista
do mar, a quem se punha detrás dele; cuja cabeça era grandíssima,
e tinha por natureza um só olho no meio da frontaria do rosto;
as espinhas e ossos eram verdoengos; ao qual peixe não soube
ninguém o nome, por não haver entre os índios nem portugueses
quem soubesse dizer que visse nem ouvisse que o mar lançasse
outro peixe como este fora, de que se admiraram muito.